Estudo inédito no Brasil mapeou os recursos hídricos da região e descobriu um mar correndo sob as terras que compreendem as regiões Norte, Nordeste e Noroeste do Estado. Após dez anos de pesquisa, o Projeto Águas do Norte de Minas (PANM) revelou manancial com capacidade anual de 3,9 hectô-metros cúbicos, volume que corresponde a 20% do reservatório da usina hidrelétrica de Três Marias, na região Central de Minas.

O mapeamento foi feito pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) e apontou, ainda, que a região já utiliza média de 17% dessa capacidade anual. No entanto, segundo o pesquisador do CPRM Márcio de Oliveira Cândido, que esteve à frente do projeto, esse uso não é o mesmo para todo o Norte.

Os 3,9 hectômetros por ano traduzem, basicamente, a capacidade hídrica dos sistemas da região baseada nos ciclos de recarga da água, e consideram os volumes tanto de água subterrânea quanto superficial. Essa recarga, de acordo com Cândido, depende ainda das variações climáticas na região. “Apesar de parecer um volume alto, também mostra o limite de uso da água na região. Significa que essa água pode, sim, ser usada e empenhada nas necessidades da população, desde que de forma mais eficiente”.

O mapeamento abrangeu área maior do que o território de países como o Uruguai. Compreendeu 181 municípios. Para aumentar a precisão dos resultados, área foi dividida em 14 bacias, a maior parte concentrada nas regiões das bacias do São Francisco e do Jequitinhonha. Mais de 40 técnicos e pesquisadores participaram do trabalho, que teve R$ 6,5 milhões em investimentos.
 
PIONEIRISMO
De acordo com a diretora do Igam Marília Carvalho de Melo, o estudo é inovador e fundamental para a gestão de recursos hídricos no Estado. “Avançamos pouco no Brasil em dados de disponibilidade hídrica subterrânea. Não há um estado que tenha feito algo com a profundidade que fizemos para o Norte”, comemorou, acrescentando que a região foi escolhida pelo alto volume usado de recursos hídricos subterrâneos. “Por ter clima predominantemente semiárido, com menor disponibilidade de água superficial, a população encontra nos poços e na água abaixo da terra solução para resolver as crises hídricas, muito mais frequentes”.

Os resultados do projeto servirão, agora, para pensar políticas de uso adequado da água e discutir os já existentes, como o critério para autorizar o uso de poços artesianos. A permissão é para extrair até 14 mil litros por dia sem avaliação técnica de outorga.

“Utilizamos esse critério antes para garantir o acesso à população mais carente, que usava para consumo próprio, de animais e para irrigar pequenas produções agrícolas, e concluímos com o mapeamento que o critério foi acertado e vai continuar valendo”.

A gestora ainda contou que Igam e CPRM negociam com a Agência Nacional de Águas (ANA) para implementar o projeto no Centro-sul do Estado.

Os trabalhos do Projeto Águas do Norte de Minas (PANM) começaram em 2009 e em parceria com as secretarias de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico; de Ciência, Tecnologia e Estudo Superior e de Desenvolvimento e Integra-ção do Norte e Nordeste.

“Minas vai servir de referência para os outros, que poderão também planejar ações a partir desse conhecimento”, afirmou o diretor de hidrologia do CPRM, Antônio Carlos Bacelar.