Palco de uma avifauna riquíssima, o sertão norte-mineiro tem sido rota de ornitólogos e fotógrafos “caçadores” de imagens do Brasil e do mundo todo há vários anos. Além das espécies locais, a região recebe, todos os anos, espécies de várias áreas, especialmente da Amazônia, geralmente pela abundância de insetos.

Com um campo tão fértil, bastou um tempo de dedicação à arte de flagrar aves para que o fotógrafo de O NORTE, Manoel Freitas, conseguisse um feito: bateu a marca, em 2020, de 4.896 registros científicos de aves publicados na maior enciclopédia eletrônica do gênero no planeta, o wikiaves.com.br.

Em meio a mais de 36 mil colaboradores, em sua grande maioria pesquisadores, ornitólo-gos e fotógrafos profissionais, Manoel ficou com o primeiro lugar em volume de publicações – foi o maior número de registros de uma única pessoa no site em 12 anos de criação da plataforma.

Dentre as preciosidades flagradas, está o Torom-do-Nordeste (Hylopezus ochroleucus), considerada uma das espécies mais difíceis de serem fotografadas, e o Formigueiro do Nordeste (Formicivora iheringi), ambos de distribuição geográfica restrita. “O Torom é duplamente desafiador por sua cor ocre, que facilita a mimeti-zação”, conta Manoel.

O total de registros feito pelo fotógrafo norte-mineiro em 2020 é maior que todos os realizados em nove anos de participação dele no Wikiaves. O trabalho foi baseado em busca de aves migratórias enquanto elas cortejavam, se alimentavam ou em voo.  
 
EXPLORAÇÃO
A jornada, conta Manoel Freitas, teve sabor muito especial porque o Brasil é o segundo país do mundo em espécies, o que atrai observadores de todos os continentes.

“Além disso, me afastei por completo das matas nos três primeiros meses da pandemia, o que exigiu maior esforço ainda a partir de junho, quando decidi, respeitando os devidos cuidados, colocar o pé na estrada”, conta o fotógrafo de 61 anos.

A exploração começou em Montes Claros, no Parque Estadual da Lapa Grande, seguiu pelo Parque Estadual da Mata Seca (Manga), passando pelos parques Nacionais Cavernas do Peruaçu (Januária) e Grande Sertão Veredas (Chapada Gaúcha). “Os registros foram feitos sempre nas primeiras horas da manhã, quando as aves permitem maior aproximação e a luz é mansa”, explica o ambientalista.

Botumirim: santuário para as aves 
A jornada em busca das aves teve como palco determinante o município de Botumirim, no Norte de Minas, endereço da Reserva Natural Rolinha do Planalto, uma das aves mais raras do mundo. A área é a mais recente unidade de conservação de Minas Gerais – o Parque Estadual de Botumirim. 

“Mais de 50% das imagens que obtive no ano foram possíveis, principalmente, nas margens dos rios e matas da reserva. Em nove meses, obtivemos mais registros do que todos os anos anteriores no município, a ponto de, das 272 espécies de aves catalogadas em Botumirim, fiz o registro de 120”, comemora Manoel Freitas.

No total, a jornada rendeu o flagrante de 250 espécies. “Destaque para o Pica-Pau-de-Cabeça-Amarela (Celeus flavescens), com 24 registros”, contabiliza o fotógrafo de O NORTE.

Para o ambientalista, um número tão relevante de registros contribuiu ainda mais para que a ciência compreenda a distribuição geográfica, processos migratórios e estados de conservação dessas espécies em territórios distintos.

Somente em Botumirim, foi feito o primeiro registro de aves migratórias, como Sai-andorinha (Tersina viridis), Juruviara (Vireo chivi), Peitica (Empidonomus varius), Bem-te-vi-rajado (Myiodynastes maculatus) e Polícia-Inglesa do Sul (Sturnella superciliaris), além de documentar indivíduos de outras espécies, como Tesourinha (Tyrannus savana), Tesoura-do-brejo (Gubernetes yetapa), e aves de Mata Atlântica, como Saira-douradinha (Tangara cyanoventris) e Tangarazinho (Ilicura militaris).
 
DESTAQUES
Para José Luiz Vieira, diretor do Parque Estadual da Mata Seca, um dos destaques desse trabalho é o registro do Gavião-bombachinha-grande. “É importante para nossa unidade de conservação por se tratar de espécie exclusivamente florestal, que necessita de áreas extensas e contínuas para concluir seu ciclo de vida”, explica.

O ornitólogo e consultor ambiental do Ibama, Daniel Dias, ressalta que o registro de aves migratórias é extremamente importante. “É preciso documentar esse comportamento dos animais que utilizam áreas diferentes para distintas etapas de suas vidas”.

Ele destaca que a disponibilidade de alimentos é determinante para que a região receba tantas espécies, revestindo de importância a documentação do fenômeno.