A pandemia da Covid-19 impactou fortemente na realização de transplantes em Minas. Além da redução de 37% nos procedimentos de 2019 para 2020, a rede hospitalar tem observado um aumento na recusa familiar à doação de órgãos. Um problema que preocupa as autoridades de saúde, já que o Estado possui mais de 5 mil pessoas à espera de um órgão ou tecido em Minas.

De acordo com o diretor do MG Transplantes, Omar Lopes Cançado, a taxa de recusa, atualmente, está próxima dos 50%. “É um número muito alto. Trabalhávamos anteriormente com um percentual de 30% de negativas em relação à doação. Por isso, é essencial avisar sobre o desejo de ser doador, pois a família tende a seguir a vontade manifestada pelo ente”, explica.

Na tentativa de sensibilizar e conscientizar as pessoas para a importância da doação, celebra-se neste mês o Setembro Verde e, na próxima segunda-feira (27), é o Dia Nacional da Doação de Órgãos. 

No Norte de Minas, a situação tem apresentado relativa melhora, mas ainda com uma dupla realidade, de acordo com a Organização de Procura de Órgãos e Tecidos (OPO Norte Nordeste), vinculada ao MG Transplantes e ao Sistema Nacional de Transplantes.

Por um lado, comemora-se o aumento de 53% nas doações de órgãos em 2020, comparado a 2019. Por outro, há uma fila de espera de candidatos ao transplante de rim, fígado e córnea. 

“Os resultados alcançados com o aumento do número global de doadores e a queda do percentual de recusa das famílias são reflexos da política de ação da OPO, que tem como base o fortalecimento das comissões intra-hospitalares, formadas por equipe multiprofissional da área de saúde”, explica a médica coordenadora da OPO, Lorena Rabello Petrini Carvalho.

Segundo ela, essas comissões organizam, no âmbito da instituição, rotinas e protocolos que possibilitem o processo de doação de órgãos e tecidos para transplantes. Ela destaca ainda a maior sensibilidade da população com relação à doação de órgãos.
 
PROCEDIMENTOS
Em 2021, foram realizadas 21 doações efetivas e 49 transplantes de órgãos entre córnea, rim e fígado no Norte de Minas. Para diminuir a fila de espera, que hoje 
tem cerca de 40 mil pessoas em todo o país, é necessário que o número de doações cresça substancialmente.

“Espero que, num futuro próximo, a população do Norte de Minas esteja mais consciente da importância da doação e que a nossa região se torne exemplo no país como comunidade doadora”, afirma Lorena. 

Qualquer pessoa, entre 2 e 80 anos de idade incompletos, dentro dos critérios estabelecidos, pode se tornar doador de tecidos oculares (córneas e escleras). Para os outros órgãos, há critérios específicos.

 

Campanhas e educação
Em parceria com vários hospitais da região, a OPO tem realizado campanhas permanentes de incentivo à doação de órgãos e tecidos, para disseminar e naturalizar a cultura desse tipo de ação entre os mineiros. Há um consenso entre os profissionais quanto à necessidade urgente da inserção da temática da doação de órgãos e tecidos no currículo escolar. A ideia é que o tema seja tratado a partir da disciplina de ciências, nos anos finais do ensino fundamental.

A psicóloga da OPO, Gracielle Botellho Brito, ressalta que o ato de doar órgãos e tecidos deve adquirir um caráter cultural, ser naturalizado e fazer parte do cotidiano das pessoas e não ser encarado como uma situação de exceção, a ser levada em conta apenas no momento da morte. Ela acredita que a morte pode e deve ser encarada de outra forma, além da dor e da perda, embora seja um momento muito difícil para todos.

*Com Agência Minas