108 anos de história

Sargento Olímpio, o militar mais idoso de Minas Gerais, é exemplo de vida e de amor à profissão

Jornal O Norte
25/08/2016 às 07:00.
Atualizado em 15/11/2021 às 16:10

Por Fernando Abreu






Fotos: Elisabete Alves



 



Olímpio Martins Pires nasceu em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, no dia 24 de agosto de 1908. É filho do dono de engenho de cana-de-açúcar e a casa de farinha, Armindo Martins dos Santos, e da dona de casa Rosenda Soares dos Santos.
Passou sua infância em Araçuaí, ajudando o pai a fazer rapadura e a melhor farinha da região. Teve mais oito irmãos. Ainda rapazinho entrou para a Polícia Militar de Minas Gerais, em Belo Horizonte, por influência do tio José Martins Pinto, então sargento da PM.
Possui o Número de Polícia 3.197, mas não há registros da data de sua entrada na PM e ele, por mais que tentasse, não conseguia lembrar. Mas isso não importa, o que importa é seu trabalho realizado e o grande amor à profissão que sempre teve. Serviu em cidades como Belo Horizonte, Araçuaí, Diamantina, São Francisco, São Sebastião de Poções – importante centro comercial da época, hoje distrito de Montalvânia e Manga, onde vive até hoje.

Como soldado da PM, participou das Revoluções de 1930, de 1932 e de outros movimentos armados, onde viu muitos colegas morrerem e, conta com muita tristeza, teve que enterrar os seus corpos.

Em 1953, já como Cabo foi homenageado pelo Governo de Minas através do Decreto de Nº 4.123 reconhecendo seus serviços prestados nestas revoluções e o promovendo a 3º Sargento.

O PROFISSIONAL
Chegou à Manga dia 5 de outubro de 1940, ainda soldado, quando o efetivo da PM era de oito homens e possui apenas uma viatura.

Apesar de transmitir respeito e até medo, sempre foi muito bondoso e conselheiro com todos. Mesmo sendo temido, sempre foi respeitado e querido pela população. Não era muito de bater em quem perturbava a ordem, mas se precisasse batia sim.

Conversava e aconselhava os infratores antes de levá-los à prisão e, só prendia alguém em último caso. Os infratores eram, na grande maioria das vezes, arruaceiros em consequência de bebedeiras, já que, naquela época quase não existiam outros tipos de crimes como roubos, furtos e homicídios por aqui.

- Conversava muito com eles para que deixassem de fazer coisas erradas. Mas se não tivesse jeito prendia mesmo e se precisasse, também batia, era minha função! Mas éramos todos amigos uns dos outros, uma grande família, onde todos se conheciam e se respeitavam, lembra com saudade o Velho Sargento!

Tinha a função, além de soldado, também de delegado, promotor e juiz de Direito já que na época, esses profissionais não existiam por aqui.

A precariedade era tão grande que os malfeitores eram presos em sua própria casa, em um quartinho dos fundos chamado de Casa da Tenda, onde funcionava também uma marcenaria, que era seu hobby.

Certa vez, levou uma favada de um prisioneiro, próximo ao umbigo que quase tirou o velho sargento de cena. Mas foi apenas um susto.

Diz com certa inocência, que não vê diferença da Polícia Militar daquela época para a dos dias de hoje.

- É a mesma coisa. Não mudou nada, divaga o Velho Sargento. Aposentou-se há amis de 40 anos. Sempre foi e ainda é um apaixonado pela profissão e pela PM. Conta com exatidão que trabalhou durante 33 anos, 1 mês e 18 dias sem nunca ter tirado férias. Por quê? Porque não havia outro profissional que o substituísse e ele não podia deixar a cidade sem ordem e sem Lei.

GRANDES AMIGOS
Conviveu de perto e foi amigo de figuras lendárias como Anfrísio Lima, Antônio Montalvão e os coronéis Bembém, João Pereira e Virgílio Bandeira.

Lembrou com muita saudade e carinho de amigos como Anfrísio Lima, Ismael Abreu, os colegas de profissão Pascoalino Pereira, Agostinho dos Santos, Manoel Xavier e Sebastião Gonçalves.

Vez por outra parava no tempo e com o olhar vaga dava gostosas risadas... Quando perguntado do que ele havia lembrado, a memória já falhava e ele se perdia nas palavras.








 



A PESSOA
Sem problemas de saúde que o impeçam de levar uma vida normal, apesar da idade avançada, ainda toma uma pinguinha todos os dias e não dispensa uma boa feijoada, buchada e mocotó. Perguntado sobre o segredo de sua longevidade ele diz, calma e mansamente, que nunca foi de fazer extravagâncias, nunca fumou e nem se embriagou. Quando perguntei sobre as comidas pesadas, ele diz, sorridente:

- Comia e como até hoje! Mas sempre fiz e ainda faço tudo com moderação. Essas comidas são apenas de vez em quando e uma pequena porção para matar a vontade, nada de exageros, diz com seu incrível bom humor.

A FAMÍLIA
Aos 29 anos casou-se, em Rio Pardo de Minas, com Joana dos Santos, de 14 anos.

Esperou por 10 anos para que a então menina Joana criasse mais corpo para poder engravidar e ter seu primeiro filho já na cidade de Manga.

Tiveram nove filhos: Armindo, Neide, Elza, Maria da Ascenção, João Batista, José Olímpio, Cleonice, Raimundo e Geraldo. João Batista e Geraldo já são falecidos e José Olímpio e Raimundo são também sargentos da PM. O casal possui ainda 22 netos e cerca de 30 bisnetos.

Sargento Olímpio vive uma linda história de amor com a esposa dona Joana, a Janinha, como ele a trata carinhosamente. Sempre viveram em harmonia, nunca tiveram uma única desavença em 78 anos de casados. Tratam-se com amor, amizade e respeito como se fossem recém-casados. Tem enorme carinho com a esposa, filhos, netos, bisnetos e amigos.

O MITO
Há uma controvérsia quanto ao ano do seu nascimento, pois em seus documentos consta que ele nasceu em 1910, mas, de acordo com a família, ele sempre disse que, como eram muitos irmãos e a mãe foi registrá-los todos de uma vez, ele foi registrado com a data de nascimento de um irmão dois anos mais novo. Para todos os efeitos, diz a filha Ascenção, ele nasceu em 1908.

Há também uma reportagem na internet que consta um senhor Antônio, de Congonhas, como o militar mais velho do Estado de Minas Gerais, com 104 anos, mas o Sargento Olímpio, no auge dos seus 108 anos é considerado pela PM MG como o mais velho militar do Estado. Sargento Olímpio possui memória invejável, a educação de um cavalheiro, uma simpatia extraordinária e carisma único!

Um homem que fez história, esposo e pai dedicado e amoroso, que amou e ama a família e a profissão. Em tempos difíceis, de muita dificuldade, desempenhou em Manga e em todas as cidades por onde passou, um trabalho exemplar.

Um ícone da nossa cultura e de nossa história. Um mito, uma lenda vida de nossa cidade e região e também da Polícia Militar de Minas Gerais. Um exemplo a ser seguido.

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