A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE, com dados de fevereiro a abril e divulgada ontem, apontou uma série de danos da pandemia da Covid-19 ao trabalho no país.

Além do aumento da taxa de desocupação, que passou de 11,2% para 12,6% (12,8 milhões de pessoas, ante 11,9 milhões no trimestre anterior) e da disparada no número de desalentados (gente que desistiu de buscar emprego), que já somam 5 milhões, chamou a atenção a queda recorde no número de trabalhadores domésticos.

Nos três meses – os dois últimos já impactados pela chegada do novo coronavírus e por medidas de isolamento social –, 727 mil pessoas abandonaram tal tipo de serviço no Brasil, na maior queda da série histórica da pesquisa, iniciada em 2012. Além disso, houve a constatação de que, em abril, havia no país 5,5 milhões de trabalhadores domésticos. 

Embora o número pareça significativo, tratou-se do menor contingente nesse segmento, também desde 2012. E mais: do total dos trabalhadores no ramo, apenas 28,5% (1,5 milhão) possuíam carteira de trabalho assinada e o restante (quase 4 milhões) seguia na informalidade.

Também verificou-se que o segmento dos domésticos foi o terceiro com maior queda entre brasileiros ocupados no trimestre pesquisado. A redução foi de 11,6%, pouco atrás, em termos percentuais, dos índices negativos do setor de alojamento e alimentação (-12,4%) e do campeão das desocupações no período, a construção, com retração de 13,1%. 

“Esses três setores têm uma informalidade muito alta, o que explica elevação das taxas de desocupação em um período marcado pela pandemia e pelas restrições que ela trouxe”, diz o analista do IBGE em Minas, Gustavo Fontes.
 
EXEMPLOS
Não é difícil encontrar rostos e histórias para ilustrar as estatísticas. A faxineira Andréia Batista, de 42 anos, moradora de Ribeirão das Neves e que atua em residências da região Centro-Sul da capital, perdeu praticamente todos os serviços com a chegada da Covid-19. Mais que isso: deixou de trabalhar por causa do medo dos patrões.

“Fui dispensada não por questão financeira, mas pelo temor de que, como ando de ônibus, pudesse ficar doente e, sem saber, carregar o vírus comigo”, diz a profissional que, com duas filhas, tem dependido só da remuneração do marido, trabalhador na construção civil e que teve corte de 25% no salário. “Pedi o auxílio emergencial na Caixa, mas até agora não liberaram”.

Já a passadeira Marileidi Pereira, de 52, até conseguiu o “coronavoucher”, mas sente falta da renda obtida em três endereços nobres de BH, dos quais foi dispensada. “Temos nos virado com o salário do meu marido, porteiro, só não sei até quando poderemos pagar as contas”, afirma.

A queda de 11,8% entre os domésticos superou a dos trabalhadores da indústria (-5,6%) e do comércio (-6,8%); perdeu apenas para as registradas nos setores de alojamento e alimentação (-12,4%) e da construção (-13,1%)