Quando se adentra pelo Circuito do Diamante, em Minas Gerais, a sensação muitas vezes é de regressar no tempo, como se o turista estivesse sendo apresentado a uma Portugal da época do Império. Impressão que reforça a importância histórica da região, menos conhecida e visitada que a “concorrente” Circuito do Ouro, e justifica a intenção da editora Casa Sol Invictus em iniciar uma série de publicações sobre as cidades que formam o antigo Distrito Diamantino.

O primeiro livro é dedicado ao Serro e a alguns municípios do entorno. “Ali se preservou muito bem a tradição, a cultura e a arquitetura. Serro foi a primeira capital administrativa do distrito, um recorte que a Coroa Portuguesa fez para controlar muito de perto a extração de diamantes”, registra o historiador e escritor Antônio Nahas Junior, organizador do “Guia Cultural do Serro”, que pode ser adquirido pelo circuitodiamante.com.br ao custo de R$ 20.
 
PRÓS E CONTRAS
Integrado por cidades como Diamantina, Conceição do Mato Dentro, Turmalina, Minas Novas, além do Serro, quase todas tendo como cenário principal a Serra do Espinhaço, o circuito foi ofuscado pela sua distância de BH e o menor desenvolvimento econômico. Fator que, do ponto de vista da preservação, acabou beneficiando a região.

“Nas proximidades de Conceição do Mato Dentro, você vê pequenas vilas, sentindo-se na Portugal medieval. São lugarejos de uma beleza extraordinária, em que você vai identificando os aparatos além-mar”, destaca o organizador que, com a sua equipe, passou um ano visitando o circuito, inspirado na expedição de Affonso Ávila, feita no final dos anos 1970, e que resultou na Revista Barroco nº 16, publicada pela Coleção Mineirama.

“Seguimos o que estava na pesquisa de Affonso, que, por sua vez, seguiu o roteiro do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, autor de livros sobre o interior do Brasil e de Minas Gerais. Buscamos fazer um guia que incluísse história, roteiro gastronômico, belezas naturais e patrimônio imaterial, como as festas religiosas que ainda exibem vigor e encanto cênico”, detalha Nahas Junior, que deixou de lado a preocupação acadêmica para fazer um guia útil ao visitante.
 
DESCONHECIMENTO
Ele se volta principalmente para gerações que desconhecem a riqueza da região, característica comum a quem deixa de usufruir do interior mineiro para buscar localidades badaladas fora do Estado, com custos mais elevados.

“Isso também aconteceu com o Circuito do Ouro, lá atrás. Foi (o escritor) Mário de Andrade, em 1922, que mostrou aos mineiros como Ouro Preto, Mariana e região eram belíssimas, numa época em que não dávamos valor”, ressalta.

O Serro, destaca o livro, foi a primeira cidade a ter o conjunto urbanístico e arquitetônico tombado como Patrimônio Cultural do Brasil, em 1938.

O tesouro imaterial está representado na Festa de Nossa Senhora do Rosário, uma das mais tradicionais do país, realizada entre junho e julho, com duração de uma semana. Participam dela grupos folclóricos de catopês, caboclos e marujos, que encenam o Reinado do Congado.

A Serra do Espinhaço é uma atração à parte. Formada há 2,5 bilhões de anos, com extensão de 300 quilômetros, dela nascem três dos mais importantes rios brasileiros: Jequitinhonha, Doce e São Francisco.

A biodiversidade é exuberante e, não por acaso, foi declarada pela Unesco como Reserva da Biosfera. Tão rica quanto é a parte gastronômica, em que se destaca a produção de queijo artesanal e cachaça, de reconhecimento internacional.