Minutos antes de anunciar o depósito na Fifa de quase R$ 4 milhões para pagar parte da dívida pela compra do atacante Willian, ao Zorya, da Ucrânia, em 2014, o novo presidente do Cruzeiro, o advogado Sérgio Santos Rodrigues, recebeu na sede administrativa do clube o Hoje em Dia para uma entrevista exclusiva.

Com vários desafios pela frente, ele fala sobre a viabilidade financeira do Cruzeiro, de como arrumar dinheiro num momento de crise e sobre as ações da sua administração. A aposta do novo presidente é por uma gestão profissional e tecnológica. Sérgio Rodrigues fala de seus anseios e desafios. 

Por que ser presidente do Cruzeiro?

É um desejo de infância, acho que um desejo dos 9 milhões de torcedores cruzeirenses ter essa oportunidade. Diferentemente do que muitas pessoas acham, que nesse momento difícil é preciso de uma coragem fora do comum, é nesse momento difícil que aumenta nossa vontade de ajudar. Ainda mais sabendo que a gente se capacitou para isso, conhece bem a estrutura do clube, já estamos conversando com pessoas animadas e dispostas da mesma forma que a gente. Isso que motiva cada vez mais. Essa primeira semana de trabalho, mesmo sem posse, demonstra isso. Já saí do clube 21h40 e tinha funcionário trabalhando ainda, feliz, e isso que é o mais importante. Todos animados, empolgados com o projeto e com as coisas boas que estão por vir.

Qual o tamanho da dificuldade em assumir o clube?

É muito grande a dificuldade de assumir o clube na atual situação, mas eu sempre discordei das palavras inviabilidade, falência, insolvência. Quando ninguém acreditava que poderiam ser resolvidos alguns problemas urgentes que a gente tem, mesmo antes da posse, tudo se desenha para podermos resolver. À medida que vamos expondo nossos projetos, mostrando coisas diferentes que queremos fazer, isso que nos faz acreditar que é possível sim sair dessas dificuldades.

Com uma dívida próxima a R$ 1 bilhão, o Cruzeiro é viável?

A dívida do Cruzeiro não é diferente, não posso te dizer com toda certeza, mas pelo que me lembro, o próprio Atlético Mineiro, Vasco, Fluminense, são todos clubes que têm dívidas acima de R$ 850 milhões. A do Cruzeiro está na casa dos R$ 889 milhões. Não acho que é tão diferente desses clubes. O modo de gestão e o que queremos fazer que é bacana. Nosso comitê de inovação, por exemplo, eu vejo poucos ou nenhum clube preocupados com esse tipo de situação, buscar algo diferente, romper com o estereótipo de clube de futebol para triunfar e superar essa dificuldade o quanto antes.

Qual a espinha dorsal do seu planejamento de governança nesses sete meses de mandato?

Profissionalismo, sem dúvida nenhuma. Não temos ninguém na nossa diretoria ou superintendência que não teria capacidade de estar em qualquer outra grande empresa. Ou estamos tirando pessoas de grandes empresas ou estamos com colaboradores que são referências em suas áreas, empreendedores, donos de seus próprios negócios. Isso que não enxergo quando olho para vários clubes e vejo que ainda existe estrutura de indicação, pessoas que estão em clubes por que já estavam. Esse profissionalismo, gente com experiência de mercado, com cabeça inovadora, que vai nos ajudar a superar essa fase.

O Cruzeiro vive um problema financeiro grave e muitos duvidam da capacidade de ressurgimento do clube. O que fazer em curto, médio e longo prazos para minimizar essas dívidas?

Não tomei posse ainda, então não dá para falar em efetividade em três dias. Achamos que algumas ações geram efeitos e o principal foi buscar, não só o Pedro Lourenço (dono dos Supermercados BH), mas outros interessados em estar ao lado do clube, e mostrar que resgatamos a credibilidade, que agora temos criatividade para trabalhar, principalmente nesse aspecto comercial. Mostrar para eles que não teremos mais aquela relação do você me dá o dinheiro e ganha espaço na camisa. A gente quer construir parcerias, produtos novos que vão gerar renda para o Cruzeiro de uma forma diferente. Então, isso que vai demonstrar que a gente realmente está tomando um rumo diferente. Considerando que há poucos dias a situação estava difícil, mas caminhamos para mostrar solução.

Qual a sua relação com o Conselho Gestor? Já recebeu deles um relatório final da situação atual contábil e financeira do clube?

A relação sempre foi excelente, com a maioria deles me apoiando já na outra eleição. Tenho muita convicção de que senão todos, a maioria votou em mim nesta eleição. Já vinha falando com vários deles. Acho que fizeram um trabalho muito bom em um momento complicado para o clube. Falei com vários, falo sobre outros projetos, por exemplo, o Anísio (Ciscotto) tem uma ligação muito grande com a Itália, que ele é preocupado, já falei que quero que ele ajude no projeto do centenário. Com o Alexandre (Faria) sobre a parte financeira, o Carlinhos (Carlos Ferreira) no futebol, enfim. Somos todos cruzeirenses, independentemente de se querer ou não querer determinado presidente, embora ache que boa parte deles votou em mim e gostaria que eu estivesse aqui. No fim das contas, não vamos deixar de torcer para o Cruzeiro por isso. Todo mundo quer o bem do Cruzeiro neste momento. A gente caminha muito bem, o Sandro González e o André Argolo, que são funcionários que nos auxiliaram nesse momento, ficam com a gente, o que mostra esse clima pacífico e amistoso. Fizeram sim um book de transição, foi passado para nós e está sendo, obviamente, muito bem utilizado para encaminharmos o nosso trabalho.

O clube passou por investigações sigilosas e avaliações criteriosas em suas movimentações financeiras. Você teve acesso ao relatório da Kroll? O que você espera das investigações feitas pelas autoridades?

Eu espero punição, obviamente, para acabar com aquele estigma da impunidade. A gente quer que quem pratique irregularidade seja punido. Vai ser uma marca da nossa gestão ser implacável contra essas pessoas. Sou advogado e sei bem que não se pode acusar sem ter provas, mas tudo indica que há indícios de irregularidades. O relatório da Kroll, pelo que foi divulgado, aponta isso sim. A Polícia Civil e o Ministério Público não divulgaram nada, mas cremos que irão sair. E se sair, seremos auxiliar deles, no que for preciso de subsídio para buscar bloqueio de bens, resgatar valores que eventualmente o Cruzeiro tenha sido lesado. Vamos fazer de tudo, quem for membro do clube, expulsar também. Seremos implacáveis em relação a isso. Já tive acesso ao relatório da Kroll, mas confesso que não li, porque estamos no meio de uma tormenta. O Cruzeiro tem os problemas macro e micro, e os macros todos sabem quais são, folhas salariais atrasadas, dívidas na Fifa, focamos muito nisso no momento. Esse é um assunto que o torcedor pode ter certeza que não vamos esquecer. A gente vai se debruçar sobre ele, tem já um advogado de renome em Minas Gerais, no Brasil, que acompanhará isso de perto para nós. É um dever moral e financeiro para o Cruzeiro ir atrás de todos que lesaram o Cruzeiro. Vamos fazer isso.

O Cruzeiro quitou parte de uma dívida na Fifa e evitou a perda de mais seis pontos a serem descontados na Série B. E os demais compromissos que estão citados na entidade máxima do futebol?

Estamos caminhando. Já era um problema que estávamos atentos a ele ainda durante a eleição. Já converso sobre as potenciais dívidas que vamos ter em setembro, outubro, isso é planejamento, é não deixar para buscar a solução no momento em que o problema ocorre. Estamos bem animados em resolver essas situações.

Como buscar recursos além das quantias emergenciais, já que dinheiro entra no cofre do clube e “derrete”?

Criatividade para arrumar dinheiro. Faço um paralelo sempre com os cantores. Muitos acharam que a vida deles acabaria sem show, aí vieram as lives (shows transmitidos via internet) e muitos estão ganhando mais dinheiro do que se estivessem fazendo shows. Para isso que temos nossa equipe de inovação, profissionais que trouxemos de grandes empresas, inclusive essas extensões noturnas de trabalho passam muito por brainstorm (chuva de ideias em tradução literal) para discutirmos novos produtos, novas formas de se fazer dinheiro em curto, médio e longo prazos. O que pode ser receita recorrente, o que será produto específico para colocar no mercado de uma vez e conseguir dinheiro em curto prazo. Já está saindo muita coisa boa. Daqui a pouco vamos anunciar e, obviamente, contar com a ajuda do torcedor para isso. Eu sempre falo que o Cruzeiro só sairá do buraco se os 9 milhões de torcedores abraçarem o time e contribuírem para sua ressurreição.

Você foi bastante apoiado pelos torcedores, principalmente nas redes sociais. Como é essa relação on-line com a torcida?

Essa relação é 100%. Desde a outra eleição, já tínhamos 90%, 95% de aprovação. Nessa, a gente já viu o mesmo. O engajamento está muito bom, faço questão de me relacionar com eles, participar de lives. Publico muita coisa em rede social, realmente os retornos são muito bons. Às vezes, até gente que arruma nosso telefone, manda mensagem dando voto de apoio e agradecendo. Tenho certeza de que, quando começarmos a apresentar nossas ações, os torcedores vão ficar empolgados com isso e vão se engajar cada vez mais.

Fazer o mercado do futebol voltar a confiar, a ter credibilidade no Cruzeiro, você entende como muito difícil?

 

Não acho que será difícil. A partir do momento que o clube mostra resoluções em questões complicadas, se vê que o Cruzeiro tem uma nova cara. Fiquei feliz em ver declarações do Walter Feldman, secretário da CBF, com quem eu tenho bom relacionamento profissional. Vi que em umas três oportunidades ele elogiou o nosso trabalho, ele sabe da nossa história. Eu fui aluno da CBF em curso de gestão lá, e isso demonstra que chegamos para fazer outra história. O próprio Sérgio Sette Câmara, presidente do Atlético, agradeço o que ele falou sobre mim e falo igual, somos amigos, nos damos bem. Queremos construir uma nova relação, já falamos de jogar meio a meio, de coletivas juntos, de assistir jogos juntos. Essas são novas relações importantes de se estabelecer. Futebol é para construir e não destruir.

É possível de fato deixar essa rivalidade só dentro de campo? Seria uma das maiores quebras de tabus no futebol mineiro?

Já tivemos alfinetadas brincando. Mas é engraçado que quando um fala do outro, nós mesmos somos os primeiros a avisar: olha, xará, falei isso de você. Vai ficar dentro de campo sim, temos que ser exemplos. Alguns estados já tentaram isso, salvo engano Grêmio e Internacional têm aquela área em que torcedores podem ver os jogos juntos. São diversos projetos que podemos implementar. Sonho em ver Cruzeiro e Atlético no Mineirão, meio a meio, a gente vendo jogos juntos, o Raposão e o mascote do Atlético entrando em campo juntos, com bandeira de paz, acenando sobre isso, podendo assentar numa bancada depois para falar disso juntos. Essa atitude que vai refletir além das arquibancadas, no entorno do estádio, muitas vezes as brigas e mortes acontecem fora. Não vamos só falar, daremos o exemplo, é isso que espero que aconteça.