“Muitos fatos trazidos na representação, em notícias publicadas e em outras fontes, embora possam caracterizar irregularidades estatutárias e, até mesmo, ilícitos civis, fogem ao escopo dessas apurações”. Essa informação faz parte de uma thread publicada no Twitter do Ministério Público de Minas Gerais em 14 de maio. E mostra como é complicado não só para o órgão, mas também para a Polícia Civil, o processo que investiga as várias irregularidades no Cruzeiro mostradas pelo programa Fantástico há exatamente um ano, em reportagem dos jornalistas Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo.

Um ano depois da matéria, a ansiedade da torcida cruzeirense pela recuperação em campo e fora dele divide espaço com o desejo de que os responsáveis pelos atos, principalmente o presidente Wagner Pires de Sá, seu primeiro vice, Hermínio Lemos, o vice de futebol, Itair Machado, e o diretor-geral, Sérgio Nonato, sejam punidos. 
 
EXEMPLO
Para que isso aconteça, Rodrigo Capelo, um dos responsáveis pela apuração que resultou na matéria do Fantástico, indica o Internacional como um exemplo a ser seguido pelo Cruzeiro. E a atuação do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS), como um alento à China Azul.

“Conversando com o Ministério Público do Rio Grande do Sul, que pode ser uma referência para o Cruzeiro, os promotores me contaram que é difícil mesmo, porque você tem algumas coisas que deveriam estar tipificadas na legislação como crime, mas não estão. Mas isso não quer dizer que as coisas feitas por dirigentes dentro de clubes estão livres de ser crimes. Lá teve o caso da ‘rachadinha’. Na interpretação do MP-RS, tem crime de estelionato, pois você está enganando a instituição que você dirige. Lá teve também prestação de serviços de obras, que não aconteceram, e fizeram um esquema de notas frias. Nesse caso, o MP-RS entendeu que existia falsidade ideológica (documentos falsos), formação de quadrilha e estelionato. É fato que a legislação poderia tipificar alguns crimes para facilitar esses processos, mas a gente não deve perder de vista que, com as leis que nós temos, muitos dos atos praticados por dirigentes já poderiam ser classificados como crimes desde que haja apuração, quebra de sigilo bancário, que foi necessária para comprovar ‘rachadinha’ e esquema de notas, e a denúncia, para que isso seja levado adiante”, afirma Capelo.
 
CASO
O tempo para que o MP-RS conseguisse formular uma denúncia, se repetido em Minas Gerais, exigirá paciência da torcida cruzeirense, mas em 6 de novembro do ano passado, dois anos após o início das investigações, foram denunciadas 14 pessoas, entre ex-dirigentes do Internacional, profissionais liberais e empresários de jogadores de futebol.

A peça, que está na 17ª Vara Criminal de Porto Alegre, aponta que foram praticados estelionato, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Entre os denunciados, estão o ex-presidente Vitorio Piffero, e seus vices Pedro Affatato (Finanças), Emídio Marques Ferreira (Patrimônio) e Carlos Pellegrini (Futebol).

“Internamente, todos os envolvidos, primeiro, foram considerados inelegíveis por dez anos. Depois, foram expulsos definitivamente do quadro social do Internacional. Eles até entraram com um recurso, mas ele foi negado na última sexta-feira”, revela a jornalista Renata de Medeiros, setorista do Colorado na Rádio Gaúcha.

Tudo o que a torcida cruzeirense espera é que as coincidências com o Internacional não fiquem apenas no uso do clube por dirigentes e no rebaixamento à Série B.