A definição de uma data para o retorno às aulas presenciais em Montes Claros agradou a uns e desagradou a outros. Enquanto o Sindicato das Escolas Particulares (Sinep) comemora a decisão, o Sindicato dos Profissionais da Educação (Sindi-Educamoc) faz ressalvas.

“Esperamos que até o final de março todos os profissionais da educação estejam imunizados para garantir o retorno com segurança. Acredito que aqueles que fazem parte do grupo de risco poderão ficar afastados com laudo médico”, diz Juliana Miranda, presidente do Sindi-Educamoc. Para ela, neste momento é preciso priorizar a saúde

Já o presidente do Sinep, Élio Ribeiro, afirma que o decreto atende ao pleito da categoria, que apresentou ao município um plano de retorno seguro. 

“Recebemos a informação com serenidade. Tivemos tempo para nos organizar e estamos nos preparando há meses. Entendemos que este retorno não vai trazer impacto na questão da saúde. A movimentação de pessoas não vai gerar impacto, porque isso já existe no transporte público, já existe nas ruas. As pessoas não vão se abraçar, os alunos terão todo cuidado e as escola é o melhor ambiente para se aplicar as medidas de segurança e prevenção”, garante Élio.

O presidente do sindicato que representa as escolas destaca que aqueles que não se sentirem seguros poderão continuar o aprendizado de maneira remota, sem perda de conteúdo.

Essa deve ser a postura da assistente administrativa Mayounara Barbosa. Mãe de dois filhos, de 11 e 13 anos, ela prefere adiar o momento de mandá-los de volta à escola. “Eu não acho que é conveniente, porque começou uma vacinação agora. Professores e alunos não foram vacinados. Podemos aguentar mais um pouco. Independentemente de ser rede privada ou pública, tem situações que são muito delicadas, como o uso de sanitários. Apesar dos cuidados, não tem um banheiro para cada um. É questão de saúde mesmo. Prefiro ter meus filhos em segurança, perto de mim, do que amanhã nem tê-los mais, caso ocorra uma contaminação”, explica a mãe.

Questionada sobre o aprendizado remoto, ela diz que não ficou prejudicado e a escola investiu no ensino com disciplina e organização, inclusive com apoio psicológico. “Estamos na era da tecnologia. As crianças gostam de internet, de jogos, então também podem aprender por meio do computador. Depende muito do incentivo da escola e dos pais. Continuei com a matrícula dos meus filhos na escola particular e recebi todo apoio. Tem que ter horário para estudar e para o lazer. À escola, cabe ensinar conteúdo, mas a educação é dos pais e em nenhum momento quero abrir mão disso. Para a gente que não parou de trabalhar ficou mais apertado, mas não é impossível nos adaptarmos”.
 
PREMATURO
A vereadora e professora Iara Pimentel, membro da Comissão de Educação da Câmara, acha prematuro o retorno. “A Sociedade Mineira de Pediatria orienta que toda a comunidade escolar seja vacinada antes da abertura das escolas. Existem muitos protocolos neste decreto e a gente quer saber se o município vai conseguir garantir que todos sejam aplicados para que a gente tenha segurança sanitária. Na prática, é muito difícil garantir isso. Então, continuo defendendo a vacina para todos”, avalia Iara.

Em entrevista, o procurador do município, Otávio Rocha, afirmou que a limitação inicial de 35% dos alunos poderá ser ampliada depois de avaliada a situação. Em caso de ocupação dos leitos clínicos e de UTIs acima do normal, o retrocesso não está descartado. 

“Foi estabelecida uma regra que coloca a vacinação de professores como prioritária, de acordo com disponibilização de vacinas pelo Ministério da Saúde, para possibilitar que a atividade de ensino possa se desenvolver de maneira mais segura”, diz o procurador.
 
ARRISCADO
Para o médico e coordenador do curso de Medicina da Funorte, Marcos Barros, retornar com as aulas em março pode ser uma atitude precipitada, uma vez que ainda não há vacina para todos. Para ele, o ideal seria esperar pelo menos até meados de abril.

“Minha avaliação é a de que o município deveria estabelecer uma meta, como vacinar todas as pessoas acima de 65 anos e com comorbidades antes deste retorno, considerando que já existe uma nova cepa do vírus circulando no país. Muita gente saiu de Manaus para tratar em outras cidades. Esta nova cepa está se espalhando e vai chegar a lugares onde não há estrutura para atender um agravamento rápido. Montes Claros definitivamente não tem essa estrutura. Se tivermos hoje 120 ou 130 casos precisando desse tratamento, vai morrer gente na porta de hospital. A cidade teve nove meses para se preparar e mostrou que não faz investimento em educação. Tem recurso para investir em asfalto, mas não em educação. É muito arriscado. Deveríamos esperar pelo menos mais 60 dias”, alerta o médico.