Impactos financeiros

Queda da Selic barateia crédito, estimula consumo e pode elevar inflação

Vanessa Araújo
vanraraujo@gmail.com
Publicado em 04/05/2026 às 19:00.
O movimento influencia o custo do crédito, o consumo, os investimentos e o ritmo da economia (Acervo Magnific)
O movimento influencia o custo do crédito, o consumo, os investimentos e o ritmo da economia (Acervo Magnific)

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 0,25 ponto percentual, de 14,75% para 14,50% ao ano. A mudança tende a impactar diretamente o cotidiano das famílias brasileiras, cujo endividamento atingiu 80,4% em março, maior nível da série história da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). 

O movimento influencia o custo do crédito, o consumo, os investimentos e o ritmo da economia. Segundo a economista e professora Vânia Vilas Bôas, do Departamento de Ciências Econômicas da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), os efeitos são amplos e nem sempre imediatos.

De acordo com ela, a queda da Selic costuma levar à redução gradual dos juros cobrados por bancos em financiamentos, empréstimos e crediários. “Isso pode facilitar o acesso ao crédito tanto para compras de bens, como carros, eletrodomésticos e imóveis, quanto aliviar o peso das dívidas para muitas famílias”, explica. Com crédito mais barato, o consumo tende a crescer, já que o financiamento se torna mais acessível.

Esse movimento também alcança o setor produtivo. “As empresas passam a investir mais, contratar mais trabalhadores e ampliar a produção, o que contribui para o crescimento econômico e a geração de empregos”, afirma. A ampliação do consumo e dos investimentos, nesse contexto, é um dos principais mecanismos de estímulo à economia.

Por outro lado, a economista chama atenção para possíveis efeitos colaterais. Um deles é a pressão inflacionária. “Quando os juros caem, o crédito fica mais barato e as pessoas tendem a consumir mais. Se a produção não acompanhar esse aumento da demanda, os preços podem subir, reduzindo o poder de compra, especialmente das famílias de menor renda”, diz.

Outro risco é o aumento do endividamento. “Com a queda dos juros, as pessoas podem assumir financiamentos além da sua capacidade de pagamento”, alerta. Além disso, a redução da Selic pode provocar a desvalorização da moeda brasileira frente ao dólar, já que investidores podem buscar mercados com juros mais altos. “Isso encarece produtos importados, combustíveis e alguns alimentos, pressionando novamente a inflação”, acrescenta.

Vânia também destaca que os efeitos da queda da Selic não são imediatos. “Existe um intervalo até que os bancos reduzam efetivamente os juros para o consumidor e até que a economia responda com maior crescimento”, explica.

Para quem tem recursos aplicados, o cenário também muda. “Investimentos de renda fixa, como poupança, CDB e títulos públicos, passam a render menos”, afirma. Segundo ela, isso pode levar investidores a buscar alternativas com maior rentabilidade. “Esse impacto atinge principalmente aposentados e pessoas que dependem desses rendimentos para complementar o orçamento doméstico”, conclui.

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