
O endividamento feminino no Brasil segue em alta e já atinge 76,9% das mulheres, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). Apesar de uma leve redução na diferença entre os gêneros, as mulheres continuam enfrentando mais dificuldades financeiras do que os homens.
Além disso, um estudo da Serasa aponta que 93% das mulheres contribuem financeiramente para as despesas familiares e, em um terço dos lares brasileiros, elas são as únicas responsáveis pelo orçamento. O percentual é ainda maior entre famílias de baixa renda, onde 43% das mulheres arcam sozinhas com as contas da casa.
O levantamento também destaca que o acúmulo de responsabilidades agrava a situação financeira feminina: 90% das entrevistadas afirmaram que precisam conciliar o trabalho remunerado com as tarefas domésticas. Como resultado, muitas enfrentam dificuldades para administrar o orçamento e priorizam o pagamento de dívidas.
Na tentativa de regularizar a situação financeira, as mulheres fecham 25% mais acordos no Feirão Serasa Limpa Nome do que os homens. Ainda assim, oito em cada dez mulheres (85%) já tiveram pedidos de crédito negados. Entre aquelas que buscaram crédito nos últimos 12 meses, a maioria o fez para cobrir despesas inesperadas (26%) ou pagar faturas do cartão de crédito (22%).
A dificuldade de acesso ao crédito (47%) e o endividamento (31%) aparecem como os principais desafios financeiros enfrentados pelas mulheres, evidenciando a vulnerabilidade econômica desse grupo, especialmente entre chefes de família de menor renda.
Clemesi Maria dos Santos, trabalhadora de serviços gerais, enfrenta dificuldades financeiras devido ao endividamento e à baixa renda familiar. Mãe de uma criança de 13 anos, ela é viúva e mantém a casa com uma única fonte de renda. “Devo demais, muito”, admite, relatando como as contas acumuladas afetam sua vida. “As coisas estão todas caras, então acabam impactando mesmo. Aí ficam as contas atrasadas, cartão de crédito”. A dificuldade de acesso ao crédito formal também é um obstáculo. “Sinto muitas dificuldades mesmo. Nem vou em banco tentar”, relata.
Para contornar a situação, ela recorre a empréstimos informais. “Faço um crédito amigo, um grupo no WhatsApp, um consórcio entre amigos”. Segundo ela, essas alternativas ajudam, mas têm limitações. “Não pode fazer muito alto, senão você não consegue pagar. E tem que pagar, senão perde até isso”, conta.
Para equilibrar as despesas, Clemesi corta gastos, evita compras desnecessárias e tenta renegociar dívidas, mas nem todas conseguem ser quitadas.
O endividamento das mulheres no Brasil é um fenômeno influenciado por diversos fatores sociais e econômicos, afirma a professora de ensino superior na área de administração, June Marize Castro Silva. “As mulheres atualmente assumem o papel de provedoras do lar também. Hoje, há um percentual de mulheres que se endividam, mas também um percentual que são as principais responsáveis financeiras da casa.”
Um dos fatores que mais pesam no endividamento feminino, segundo a professora, é a responsabilidade financeira com os filhos. “Dificilmente você verá um homem se endividando para realizar o sonho de um filho. Mas você verá mulheres se endividando para que os filhos tenham seus sonhos realizados.”
Além disso, a desigualdade salarial também é um ponto crítico. “Muito embora se propague a igualdade no mercado de trabalho, as mulheres ainda recebem menos que os homens nas mesmas funções.”
“A pressão estética contribui para o endividamento feminino, pois o consumo de produtos de beleza é uma forma de autoafirmação em uma sociedade que associa o envelhecimento das mulheres à velhice, enquanto considera os homens grisalhos mais charmosos”, explica Silva. A professora também ressalta a importância da educação financeira no Brasil, destacando que muitas pessoas não aprendem a gerenciar seu próprio dinheiro.
June Marize destaca que as empreendedoras montes-clarenses, especialmente as em situação de vulnerabilidade, buscam alternativas para equilibrar as contas, como a venda de bolos e marmitas, mostrando criatividade e resiliência financeira.
Por fim, a professora destaca que, apesar dos desafios, as mulheres brasileiras buscam honrar seus compromissos financeiros. “A cultura brasileira preza pela idoneidade. Temos muito mais pessoas querendo fazer o certo do que o errado. A maioria das mulheres, embora enfrente dificuldades, quer manter um comportamento financeiro responsável, tanto para si quanto para os filhos e para a sociedade”, conclui.
*Com informações da Agência Brasil