Agricultura familiar

Morango mineiro que desafia o clima do semiárido

Vanessa Araújo
vanraraujo@gmail.com
Publicado em 02/06/2026 às 19:00.

O que começou como uma iniciativa considerada improvável para o clima quente do Norte de Minas se transformou em uma importante fonte de renda para dezenas de famílias rurais. Em Montes Claros, a produção de morangos, iniciada pelo agricultor João Simael Ferreira da Silva na comunidade de Pentáurea, reúne atualmente cerca de 40 produtores e abastece feiras livres, supermercados, atacadistas e até a merenda escolar da rede municipal.

Reconhecido pelos produtores locais como pioneiro no cultivo da fruta na região, João Simael apostou no potencial de uma área com características climáticas diferenciadas dentro do município. Apesar da desconfiança inicial, ele decidiu investir em uma cultura tradicionalmente associada às regiões mais frias do Sul de Minas.

Filho do produtor, Maykon Thiago Ramos Silva conta que o pai sempre teve ligação com a agricultura e gostava de buscar novas possibilidades para o campo. “Todo mundo o chamou de doido. Diziam que não daria certo por causa do clima. Mas existe um microclima na região que favorece o cultivo do morango e permitiu que a produção se desenvolvesse sem a necessidade de uso de agrotóxicos”, afirma.

Segundo Maykon, os primeiros resultados positivos despertaram o interesse de outros agricultores. Aos poucos, a produção foi se expandindo e passou a atrair novos produtores, tornando-se uma alternativa de diversificação e geração de renda para a agricultura familiar.

A continuidade do trabalho ganhou um significado ainda maior após o diagnóstico de câncer de João Simael. Morando em Florianópolis, onde atua no Tribunal de Contas, Maykon conta que decidiu, junto com a irmã, manter o legado deixado pelo pai. “Ele queria que a gente desse continuidade ao trabalho, ao incentivo à agricultura familiar e principalmente ao cultivo sem agrotóxicos. Foi isso que nos motivou a seguir com a produção”, relata.

Atualmente, a família mantém o cultivo na Fazenda Serra Velha, onde parte da produção é realizada em estufas e sistemas protegidos. O uso dessas tecnologias permitiu ampliar o período produtivo e reduzir os impactos causados pelo excesso de chuva e pelas altas temperaturas. “No início, a produção acontecia apenas durante a época seca. Com as estufas e as novas variedades de mudas, conseguimos produzir durante praticamente todo o ano”, explica Maykon.

Entre os agricultores que seguiram os passos do pioneiro está Abraão Rodrigues. Com experiência em culturas como melancia e pimenta, ele iniciou o cultivo de morangos em 2024 após conhecer João Simael e receber a oportunidade de produzir na propriedade. “Sempre tive vontade de plantar morango. Conheci o senhor Simael, fiz amizade com ele e ele me deu a oportunidade de cultivar morango em sua propriedade”, conta.

Para Abraão, além da rentabilidade, a produção representa a oportunidade de desafiar um conceito amplamente difundido sobre a cultura. “A motivação foi produzir o morango, conhecer a planta de perto, me desafiar e quebrar esse tabu de que só se produz morango no Sul de Minas”, afirma.

O crescimento da atividade também pode ser medido pelos números da cooperativa regional. De acordo com o presidente, Emilson Dias, atualmente 40 dos 96 produtores de hortifrúti vinculados à entidade cultivam morango. Segundo ele, a expansão ocorreu gradualmente. O cultivo começou com apenas um produtor testando mil mudas. Com os resultados positivos, outros agricultores passaram a investir na cultura. “Começamos com um produtor plantando mil mudas para testar. Depois passaram a ser três produtores, cinco, vinte e hoje somos 40 produtores cultivando morango”, explica.

A comercialização acontece principalmente por meio da venda direta ao consumidor. Os produtores estão presentes em feiras livres, como as feiras da Carolina, São José e Major Prates, além de comercializarem para atacadistas e por meio de entregas diretas. Outro importante canal de escoamento da produção é o mercado institucional. A cooperativa fornece morangos para a merenda escolar da rede municipal de Montes Claros, com entregas que chegam a aproximadamente duas toneladas por semana.

Para Emilson Dias, a proximidade com o mercado consumidor representa uma das principais vantagens da produção local. Diferentemente dos morangos vindos de outras regiões, que percorrem centenas de quilômetros até chegar ao consumidor, a produção local está a poucos quilômetros da cidade. “O morango produzido aqui é colhido, embalado e comercializado praticamente no mesmo dia. Isso garante mais qualidade e frescor ao produto”, destaca.

Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta desafios. O principal deles é a obtenção de mudas. Atualmente, os produtores dependem de fornecedores do Sul de Minas, de outras regiões do país e até do exterior, o que encarece a produção e exige cuidados especiais durante o transporte. A expectativa dos produtores é viabilizar, nos próximos anos, a produção de mudas na própria região. A medida pode reduzir custos, fortalecer a cadeia produtiva e incentivar a entrada de novos agricultores no cultivo.

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