Renda complementar

Mercado de aluguel por temporada avança e exige gestão profissional

Vanessa Araújo
vanraraujo@gmail.com
Publicado em 30/06/2026 às 19:00.

Em 2025, o Brasil recebeu 9,3 milhões de turistas estrangeiros, um recorde histórico e alta de 37% em relação ao ano anterior, segundo dados da Embratur e do Ministério do Turismo. No mercado de hospedagem, plataformas digitais ampliaram sua participação: o Airbnb informa que reúne mais de 9 milhões de anúncios ativos em todo o mundo e opera em mais de 220 países e regiões. No Brasil, a empresa afirma que a maior parte dos anfitriões possui apenas um ou dois imóveis anunciados, indicando que o segmento é formado predominantemente por pequenos proprietários que utilizam a locação por temporada como fonte de renda complementar.

Em Montes Claros, a demanda é puxada principalmente por profissionais que permanecem na cidade por períodos determinados para atender empresas dos setores industrial, farmacêutico e de serviços, perfil observado por administradores de imóveis que atuam no segmento. O crescimento desse mercado, no entanto, também traz desafios relacionados à gestão dos imóveis, às regras de convivência em condomínios e à segurança jurídica das locações. A avaliação é da advogada especializada em Direito Imobiliário e empresária do setor Janayna Takaki, que atua na administração de flats destinados à locação por temporada.

Segundo ela, a popula-rização de plataformas como Airbnb e Booking ampliou o acesso dos consumidores e facilitou a entrada de novos proprietários nesse mercado. “As plataformas tornaram esse tipo de hospedagem muito mais acessível. Antes, grande parte das reservas passava por empresas de turismo. Hoje, qualquer pessoa consegue pesquisar, reservar e cancelar um imóvel de forma simples”, afirma.

Para Takaki, apesar da praticidade, proprietários devem adotar alguns cuidados antes de disponibilizar um imóvel para esse tipo de locação, principalmente quando a negociação ocorre diretamente com o cliente. “É preciso ter cuidado com contratos, valores, garantias e prazos. Um contrato bem elaborado traz transparência para as duas partes e evita conflitos ou interpretações equivocadas durante a locação”, orienta.

Outro ponto que exige atenção é a convivência nos condomínios. Com o aumento do número de imóveis destinados à hospedagem temporária, cresce também a circulação de pessoas diferentes em empreendimentos originalmente planejados para moradores fixos. “Hoje existe um modelo híbrido, com moradores e hóspedes dividindo os mesmos espaços. Regras sobre uso das áreas comuns, vagas de garagem, horários de silêncio e segurança são fundamentais para garantir a boa convivência e evitar judicializações”, destaca.

Na prática, Janayna observa que boa parte da demanda em Montes Claros vem de profissionais que chegam à cidade para prestar serviços temporários em grandes empresas. “Essas pessoas procuram o conforto de uma casa, sem a necessidade de comprar móveis ou estruturar um apartamento para uma permanência temporária. Elas buscam comodidade, praticidade e menos burocracia”, detalha a empresária.

Segundo ela, administrar imóveis por temporada exige uma operação mais estruturada do que muitos imaginam. Além da limpeza e manutenção frequentes, é necessário investir em atendimento, organização financeira e gestão tributária. “Hoje é indispensável ter uma estrutura profissional. Muitos hóspedes precisam de nota fiscal ou recibo, principalmente quando vêm trabalhar para empresas. É preciso sair do amadorismo”, defende.

Durante os oito anos de atuação no mercado, ela observou uma mudança significativa no perfil dos inquilinos. O perfil de demanda migrou do volume de diárias isoladas para contratos de média temporada, que podem se estender por até 90 dias. “Atualmente, hospedamos professores de diversas partes do país, como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, que vêm à cidade para ministrar cursos de doutorado e permanecem pelo tempo necessário para a conclusão de suas atividades acadêmicas”, relata.

Ela acrescenta que o crescimento da modalidade também intensificou o debate sobre regulamentação e concorrência com a hotelaria. “Existe uma pressão do setor hoteleiro porque o aluguel por temporada passou a oferecer uma alternativa competitiva. É um mercado que continua crescendo e que precisa de regras claras para garantir segurança a proprietários, hóspedes e condomínios”, conclui.

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