Custo de vida

Inflação desacelera, mas alimentos seguem pressionando orçamento

Leonardo Queiroz
leonardoqueiroz.onorte@gmail.com
Publicado em 22/09/2026 às 19:33.
Inflação registra, em agosto de 2026, menor índice do ano: 0,19% (Leonardo Queiroz)
Inflação registra, em agosto de 2026, menor índice do ano: 0,19% (Leonardo Queiroz)

Montes Claros registrou, em agosto, a menor inflação de 2026 até agora. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC-Moc), calculado pelo Setor de Índice de Preços ao Consumidor do Departamento de Economia da Unimontes, ficou em 0,19%, abaixo dos 0,53% registrados em julho. Apesar da desaceleração, o resultado não significa que os preços tenham diminuído de forma geral. O acumulado nos oito primeiros meses do ano chegou a 4,84%, mostrando que o custo de vida continua pressionando o orçamento das famílias.

Segundo a economista Vânia Vilas Boas, coordenadora do IPC-Moc, é importante interpretar corretamente o resultado. “Uma inflação de 0,19% não significa que os preços, de uma maneira geral, tenham diminuído. Significa que, na média da cesta de consumo pesquisada pelo IPC de Montes Claros, os preços aumentaram em um ritmo bem menor”, explica.

Na prática, a diferença está entre pagar menos e pagar mais devagar. Um produto que já sofreu reajustes e atingiu um preço elevado pode continuar caro mesmo quando sua alta perde força. “A inflação menor não está significando preços menores. Se um produto já ficou caro e passa a subir mais lentamente, ele continua caro. A desaceleração representa uma redução nesse ritmo de crescimento dos preços e não necessariamente uma volta aos preços anteriores”, esclarece Vânia.

A economista utiliza o café como exemplo. Segundo ela, o pacote de 250 gramas, que tinha preço médio de R$ 8,15, chegou a custar R$ 14 e, posteriormente, até R$ 19. Atualmente, o produto pode ser encontrado por cerca de R$ 13. Embora tenha apresentado redução em relação ao pico, o valor ainda está acima do patamar anterior. “Diminuiu, mas não voltou ao patamar anterior. Ou seja, não é uma volta aos preços anteriores”, afirma.

Entre os grupos pesquisados, Alimentação foi o principal destaque de agosto, com alta de 1,19% e contribuição de 0,35 ponto percentual para o resultado final do IPC. Como os alimentos possuem peso elevado no orçamento doméstico, o comportamento do grupo continua sendo sentido diretamente pelos consumidores, especialmente nas compras de supermercado.

“Mesmo com a inflação geral mais baixa, o consumidor continua sentindo a pressão no supermercado”, destaca Vânia. Entre os produtos que ficaram mais caros, chamaram atenção itens in natura, como o limão, que teve aumento superior a 66%, além de maracujá, mexerica e manga. Em contrapartida, houve redução nos preços da batata inglesa, cebola e alho.

O resultado mais moderado do IPC foi favorecido principalmente pelo grupo Transporte e Comunicação, que apresentou queda de 1,10% e contribuição negativa de 0,21 ponto percentual. Segundo Vânia, etanol, óleo diesel e gasolina tiveram quedas expressivas e ajudaram a reduzir o índice geral de agosto. Também apresentaram variações negativas os grupos Habitação, com -0,08%, e Artigos de Residência, com -0,57%.

Outro dado importante foi o comportamento da cesta básica, que registrou a segunda queda consecutiva. Em agosto, o custo médio dos 13 produtos pesquisados passou de R$ 576,83 para R$ 571,37, uma redução de R$ 5,46, equivalente a 0,95%. Mesmo com a queda mensal, a cesta acumula alta de 1,29% nos oito primeiros meses de 2026.

A redução foi favorecida principalmente pela queda nos preços de arroz, batata, carne, tomate, café e feijão. Porém, alguns produtos seguiram na direção contrária. “Assim como no IPC, nós vimos o caso da fruta, aqui é a banana, que teve reajuste de mais de 14%, e o óleo de soja, que subiu aproximadamente 2,72%”, observa a economista.

A dona de casa Divina Martins reclama do preço da cesta básica “Ainda não dá para notar uma redução significativa na cesta básica. Os meses passam e o valor continua em uma média que nunca tem redução significativa. E quando somamos o valor da cesta básica com frutas, verduras e outros itens, isso tem pesado no orçamento. Cada vez mais difícil sobreviver com um salário mínimo”, diz.

O custo da alimentação também representa uma parcela significativa da renda das famílias de menor poder aquisitivo. De acordo com o levantamento, um trabalhador que recebe o salário mínimo de R$ 1.621 comprometeu 35,25% da renda para adquirir os 13 produtos que compõem a cesta básica.

A metodologia do IPC-Moc acompanha a evolução dos preços de bens e serviços consumidos por famílias com renda entre um e seis salários mínimos. A pesquisa é realizada mensalmente em cerca de 400 estabelecimentos comerciais de diferentes regiões de Montes Claros, permitindo acompanhar as mudanças nos preços praticados no varejo.

Apesar do resultado de agosto, Vânia alerta que a desaceleração não deve ser interpretada como garantia de inflação baixa nos próximos meses. Para ela, o comportamento dos preços continuará bastante desigual entre os produtos, principalmente por causa de fatores climáticos que afetam a produção e a oferta de alimentos.

“Não devemos interpretar esse resultado de agosto como uma garantia de que a inflação continuará muito baixa nos próximos meses. O que estamos observando é uma inflação mais comportada na média, mas com preços bastante diferentes entre os diversos produtos”, afirma.

A atenção deve ser redobrada com frutas, verduras e outros produtos in natura, que respondem rapidamente às condições de oferta, clima, produção e comercialização. “É bem possível que alguns alimentos continuem subindo enquanto outros apresentem redução”, acrescenta.

Para os próximos meses, a expectativa apontada pela economista é de uma inflação mais moderada do que a observada no início de 2026, mas sem indicar estabilidade geral dos preços. “O consumidor deve continuar atento, principalmente aos alimentos, porque são justamente esses produtos que apresentam mais oscilações de preços”, diz.

Nesse cenário, a pesquisa de preços continua sendo uma ferramenta importante para o orçamento doméstico. Segundo Vânia, a diferença entre os valores praticados pelos estabelecimentos pode representar uma economia significativa no fim do mês, especialmente em uma cidade como Montes Claros, que possui ampla oferta de supermercados, atacarejos e outros pontos de venda.

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