
A inflação voltou a acelerar em Montes Claros no mês de junho. De acordo com a pesquisa do Índice de Preços ao Consumidor (IPC-Moc), elaborada pelo Departamento de Economia da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), o índice fechou o mês em 0,82%, acima dos 0,58% registrados em maio. Com o resultado, a inflação acumulada no primeiro semestre de 2026 alcançou 4,09%, refletindo o aumento do custo de vida das famílias com renda entre um e seis salários mínimos.
O levantamento evidencia que a principal pressão sobre os preços veio do grupo Habitação, que apresentou alta de 2,23%, sendo o maior responsável pelo resultado do mês. O destaque ficou para o reajuste de 5,16% na tarifa de energia elétrica, considerado o principal fator para a elevação da inflação em junho.
Segundo a economista Vânia Silva Vilas Bôas, o aumento da energia tem impacto direto no orçamento das famílias e também influencia outros setores da economia. “O principal destaque do mês foi o Grupo Habitação, que apresentou alta de 2,23%, respondendo pela maior contribuição individual para o índice. O comportamento desse grupo foi fortemente influenciado pelo reajuste de 5,16% na energia elétrica. Por se tratar de um serviço essencial, esse aumento exerce impacto direto sobre o poder de compra da população, principalmente das famílias de menor renda. Além disso, a elevação dos custos de energia tende a produzir efeitos indiretos sobre outros setores da economia, aumentando os custos de produção, armazenamento e distribuição de bens e serviços”.
Outro grupo que contribuiu para a alta da inflação foi Alimentação, que registrou variação de 1,52%. Entre os produtos que mais subiram estão o chuchu (59,50%), quiabo (21,65%), maxixe (19,85%), além de itens como feijão (3,98%) e ovos (3%). Em contrapartida, alguns alimentos apresentaram redução de preços, como tomate (-6,46%), melancia (-7,02%) e beterraba (-10,69%).
No grupo Transportes e Comunicação, a queda de 0,32% foi influenciada pela redução dos preços dos combustíveis, com destaque para o etanol (-2,46%), óleo diesel (-2,46%) e gasolina (-0,30%). Entretanto, a economista destaca que outros custos ligados à mobilidade continuaram em alta.
“Outro fator que merece destaque foi o aumento de 4,70% no seguro particular de veículos. Embora o grupo tenha apresentado variação negativa em razão da redução dos combustíveis, a alta do seguro evidencia uma tendência de encarecimento dos custos associados à manutenção da mobilidade”.
Para Vânia, a redução dos combustíveis amenizou parte das pressões inflacionárias, mas não foi suficiente para compensar o aumento de despesas consideradas essenciais. “Observa-se, portanto, que a desaceleração dos combustíveis não foi suficiente para neutralizar completamente o aumento de outros componentes importantes do orçamento das famílias. Enquanto a queda da gasolina, do etanol e do óleo diesel contribuiu para aliviar parte das pressões inflacionárias, o avanço das despesas com energia elétrica e seguro de veículos reforça a persistência de aumentos em itens de caráter praticamente obrigatório”.
CESTA BÁSICA RECUA, MAS CONTINUA PESANDO NO ORÇAMENTO
Apesar da inflação mais elevada, a pesquisa aponta uma boa notícia para o consumidor. A cesta básica apresentou queda de 1,54% em junho, passando de R$ 638,80 para R$ 628,96. Ainda assim, o acumulado do primeiro semestre registra alta de 11,50%, demonstrando que o custo da alimentação permanece elevado.
O trabalhador que recebe um salário mínimo de R$ 1.621,00 precisou comprometer 38,80% da renda para adquirir os 13 produtos da cesta básica. Após a compra dos alimentos essenciais, restaram R$ 992,04 para despesas como moradia, transporte, saúde, vestuário e lazer. O tempo de trabalho necessário para comprar a cesta caiu de 107 horas e 51 minutos para 106 horas e 12 minutos.
Entre os produtos da cesta, destacaram-se as quedas do tomate (-10,02%), café (-1,55%) e carne bovina (-0,15%), enquanto banana-caturra (4,74%), batata (2,52%), açúcar (1,32%), arroz (0,40%) e feijão (0,35%) registraram aumento.
“Mesmo com a cesta básica mantendo praticamente o mesmo preço, o orçamento continua muito apertado. Todo mês preciso fazer as contas para conseguir comprar os alimentos e ainda pagar as outras despesas da casa. A aposentadoria é dividida entre os remédios, o supermercado e as contas, então qualquer gasto a mais faz diferença. É uma verdadeira matemática para conseguir fechar o mês sem faltar o essencial”, explica a aposentada Divina Martins.
Para julho, a expectativa é de uma inflação mais moderada, favorecida pela maior oferta de hortifrutigranjeiros e pela redução da demanda típica das festas juninas. No entanto, Vânia alerta que ainda existem fatores capazes de pressionar os preços. “Para julho, a tendência é de desaceleração moderada da inflação, embora o índice deva permanecer positivo. A entrada da safra de hortifrutigranjeiros e a redução da demanda das festas juninas devem contribuir para esse cenário. Entretanto, permanecem riscos como os efeitos do reajuste da energia elétrica, possíveis oscilações climáticas e a persistência de pressões sobre carnes, ovos e hortaliças”.
Sobre a cesta básica, a economista avalia que o custo da alimentação deve permanecer elevado. “Em relação à Cesta Básica, a expectativa é de estabilidade ou leve redução, caso permaneçam as condições favoráveis de oferta de alimentos in natura. Contudo, dificilmente haverá uma queda suficiente para reverter o forte aumento acumulado no primeiro semestre. Assim, o custo da alimentação continuará representando um dos principais desafios para o orçamento das famílias montes-clarenses, sobretudo daquelas com renda de até um salário mínimo”.
