Clima extremo

El Niño pode elevar preços dos alimentos e afetar o orçamento das famílias

Vanessa Araújo
vanraraujo@gmail.com
Publicado em 31/07/2026 às 19:00.

O consumidor pode sentir no bolso os efeitos do El Niño antes mesmo da próxima safra. As primeiras culturas impactadas pelo fenômeno climático costumam ser as hortaliças, como verduras, legumes e frutas, sendo mais sensíveis às variações de temperatura, chuva e disponibilidade de água. A consequência pode ser a redução da oferta, produtos com qualidade inferior e aumento dos preços nos mercados.

Além das hortaliças, culturas como feijão, milho, arroz e café também podem sofrer perdas de produtividade, o que pode influenciar o abastecimento e pressionar ainda mais o preço dos alimentos. Embora os impactos variem conforme a região e as condições climáticas, especialistas alertam que o planejamento e a adoção de tecnologias no campo são fundamentais para reduzir os prejuízos.

De acordo com o economista Marcos Verassani, o simples fato da expectativa de uma menor safra já faz com que as indústrias, traders e compradores façam uma corrida ao mercado para a garantia de estoque. Este movimento cria uma demanda inesperada e acaba elevando os preços. “Sempre que há uma elevação de produtos, principalmente alimentos, os mais afetados são as famílias com renda mais baixa, pois a alimentação chega a comprometer 29% da renda familiar”, diz.

Os setores mais afetados são os de transporte e de alimentação, como bares e restaurantes. “A falta de produtos em determinadas regiões faz com que haja a necessidade de se buscar produtos em locais mais distantes e com produtos mais caros. Setores alimentícios sofrem com a baixa das margens, afetando diretamente o setor”, esclarece o especialista. Além disso, a falta de chuvas impacta também o setor energético, encarecendo a conta de luz e afetando toda a cadeia produtiva.

A engenheira agrônoma Inêz Silva explica que a intensidade desses impactos depende não somente da abrangência do fenômeno climático, mas também da capacidade de adaptação dos produtores e das condições de produção em cada região do país. “No caso do café, por exemplo, mudanças no volume de chuvas e temperaturas elevadas podem comprometer a florada, o desenvolvimento dos frutos e a produtividade, afetando tanto a safra atual quanto as seguintes. Já culturas anuais, como feijão e milho, são especialmente vulneráveis ao déficit hídrico durante as fases de desenvolvimento”, esclarece.

Ela explica que, durante o fenômeno, algumas regiões enfrentam excesso de chuvas, enquanto outras registram temperaturas elevadas e períodos de estiagem. “Essas condições favorecem o surgimento de pragas e doenças, reduzem a produtividade e comprometem a qualidade dos produtos. Como resultado, o consumidor pode encontrar frutas menores, hortaliças com menor vigor, folhas mais suscetíveis ao murchamento e produtos com alterações de tamanho e aparência”, afirma.
 
ORIENTAÇÃO PARA PRODUTORES
Para reduzir os prejuízos provocados pelo fenômeno, os produtores rurais podem investir em tecnologias e práticas de manejo que aumentem a resiliência dos sistemas produtivos. “Entre as principais estratégias estão o uso eficiente da irrigação, o manejo conservacionista do solo, a diversificação de culturas, a escolha de cultivares mais adaptadas às condições climáticas, o monitoramento das previsões meteorológicas e o planejamento adequado da época de plantio”, orienta a especialista Inêz Silva.

Embora essas medidas não eliminem os efeitos do El Niño, elas reduzem as perdas de produtividade e ajudam a manter a oferta de alimentos mais estável. “Quanto maior for a capacidade de adaptação dos produtores, menor tende a ser o impacto sobre o abastecimento e os preços, tornando o investimento em tecnologia, assistência técnica e planejamento um fator essencial para fortalecer a produção agrícola diante das mudanças climáticas”, avalia.

Além disso, os efeitos do El Niño não se restringem ao volume produzido. A qualidade dos alimentos também pode ser comprometida, já que as alterações climáticas provocam estresse nas plantas, prejudicam seu desenvolvimento e favorecem a incidência de pragas e doenças. “A menor oferta de alimentos de boa qualidade também contribui para a elevação dos preços”, explica a especialista. “Para o consumidor, os principais impactos são a diminuição da oferta de alguns alimentos, o aumento dos preços e uma maior variação na qualidade, no tamanho e na aparência de frutas, verduras e legumes”, esclarece.

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