Jerúsia Arruda


Repórter


jerusia@onorte.net



Como disse Mário de Andrade: Nada melhor que as tradições para retemperar a saúde da nossa alma brasileira.



Norteado por essa idéia de resguardar a memória e as tradições culturais do Brasil, que o grupo folclórico Zabelê foi criado. Em fevereiro de 1994, Marina Sarmento Velloso, então diretora do conservatório estadual de música Lorenzo Fernandez, propôs à professora e musicista Maria Lúcia Macedo Oliveira a criação do grupo, com o objetivo de despertar nos alunos o gosto pela cultura popular regional e pelo folclore brasileiro de um modo geral.






Criado em fevereiro de 1994, o grupo é formado por alunos e professores de arte que apresentam releituras de músicas e danças folclóricas tradicionais de todo país (fotos: arquivo)



Empolgada, Lucinha Macedo abraçou a idéia e, ao lado de professores de música, crianças e adolescentes, todos integrantes do Conservatório, começou a pesquisar sobre as danças e cantos folclóricos brasileiros e, desde então, o Zabelê vem se apresentando em todo Brasil em outros países, transmitindo para as novas gerações os valores culturais que embalaram os sonhos e crendices de nosso povo.



- Ao criar o grupo Zabelê, nossa proposta era ampliar a experiência estética, indo além dos limites artísticos, de forma que as apresentações pudessem atingir outras atividades sociais e despertar o interesse da comunidade para os valores que pautaram sua própria formação cultural e como influenciaram os costumes de seus antepassados – explica Lucinha.



O grupo reuniu um acervo sobre a música e as danças tradicionais de todas as regiões do país, as histórias de suas origens, que normalmente estão intimamente ligadas à vida das comunidades, aos seus ciclos festivos, calendários e acontecimentos, revelando aspectos do cotidiano do homem simples e, por extensão, de seus costumes, crenças, lutas, temores, superstições e amores. A maioria dessa danças eram manifestações de alegria, de comemoração de vitórias, de celebração de fatos e datas, animavam festas de casamento ou simples encontros sociais, reunindo jovens e velhos, adultos e crianças em torno de si. Pertenciam ao domínio do coletivo, da participação geral, onde todos os circunstantes nelas se envolviam, se o desejassem.



A partir dessas pesquisas, o Zabelê reconstituiu muitas dessas danças, conservando suas expressões estéticas, seu espírito lúdico e socializante. Pelas performances do grupo é possível perceber que a música, o canto e o gestual encontram-se perfeitamente interligados, interativos à dança. É certo que algumas foram atualizadas, adaptadas ao espaço, ganhando um toque de fluidez e flexibilidade, mas espontaneidade e essência foram preservadas.





- Um dos objetivos do grupo é levar a outros povos nossa cultura. São cantos e danças com riqueza de ritmos, melodias e coreografias que agradam e encantam a todos. É um orgulho para nós, estudantes e professores de arte poder mostrar nossa cultura e conhecer e respeitar o trabalho de outros grupos que têm essa mesma proposta, o que permite o desenvolvimento de cada um de nós, como ser humano e cidadão. Estes intercâmbios ressaltam as diferenças e semelhanças de costumes e valores, criam laços de amizade e promove a paz entre os povos – comemora Lucinha.



Graduada em Flauta Doce, pós-graduada em Arte-Educação e com licenciatura em Educação Artística, Lucinha Macedo é professora de Flauta Doce do conservatório estadual de música Lorenzo Fernandez, coordena o grupo Capella Montesclarense, de flauta doce, e o grupo folclórico Zabelê. Também tecladista, acompanha corais, cantores e outros instrumentistas.



Segundo a coordenadora, o grupo Zabelê participou dos oito Festivais Internacionais de Folclore de Montes Claros; do Festival de Teatro de Ubá (2005); fez várias apresentações em Belo Horizonte através da secretaria estadual de Cultura, do Sebrae e Multiminas (feira de Arte e Cultura de Minas Gerais); em várias cidades mineiras como Januária, Janaúba, São Francisco, Uberaba, Mirabela, Francisco Sá, e Salinas e foi classificado em nível regional para o Prêmio Melo Franco de Andrade 2006, do IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.



- A maior dificuldade que sempre enfrentamos é conseguir verba para confecção dos figurinos e adereços. O grupo só recebe apoio financeiro quando participa de um projeto maior, mais significativo. Normalmente, sobrevive apenas das apresentações que faz. Além disso, os integrantes não têm muita disponibilidade para se dedicar aos ensaios e apresentações, o que também dificulta o rendimento do trabalho – lamenta.



Apesar das limitações, Lucinha diz que os espaços e as oportunidades estão crescendo com o surgimento de novos grupos artísticos. A professora diz reconhecer o esforço da secretaria municipal de Cultura na promoção de eventos, mas falta ainda um Teatro digno de uma cidade com o porte e potencial artísticos como Montes Claros.



- Além da construção de um teatro, a aprovação da Lei Municipal de Incentivo à Cultura poderia contribuir para o trabalho do artista na cidade – explica.



Segundo Lucinha, o grupo Zabelê se prepara para gravação do primeiro CD.



- Se não conseguirmos aprovação pelas leis de incentivo, pensaremos em maneira de viabiliza-lo – diz.



Lucinha diz que, em 2005, o Zabelê participou de um festival no Rio Grande do Sul, onde conheceu o Ballet Municipal de San José, quando foi convidado pelo coordenador do grupo uruguaio para participar do 10º Encuentro Internacional de Danzaz de San José. Desde o último domingo o Zabelê embarcou para o Uruguai, onde permanece até o próximo 11 de dezembro.