As Festas de Agosto, em Montes Claros, foram suspensas como medida de prevenção ao novo coronavírus. A cidade já registrou mais de 60 mortes pela doença. O evento cultural e religioso, que acontece sempre neste mês, apresenta atrações, movimenta o turismo e a rede hoteleira, gera empregos e sustenta artistas locais.

Para não deixar a tradição passar em branco, o professor Lucas Carvalho, da Unimontes, decidiu resgatar uma exposição sobre o tema, mas agora, com um formato diferente: documentação on-line, que vai manter vivo o espírito das festas neste período atípico. É com ele a nossa conversa de hoje, sobre essa festa centenária, que anualmente colore as ruas da cidade.
 
Desde quando você acompanha a maior e mais antiga manifestação religiosa e cultural de Montes Claros, que é o desfile dos grupos de Catopês, Caboclinhos e Marujos?

Em 2016, eu comecei a dar aulas na Unimontes, no curso de Artes Visuais. E, em 2017, para encerrar a matéria de Fundamentos da Pesquisa em Artes, fiz uma exposição com os alunos no Museu Regional do Norte de Minas, que se chamou “Uma Cor, uma época, uma causa”. Ao fim da exposição, a então diretora do museu, professora Marina Ribeiro, me contou sobre as Festas de Agosto e disse que havia uma janela aberta para realizar uma exposição durante esse período, desde que se tratasse dos Catopês, Marujos e Caboclinhos. Foi a partir daí que comecei a pesquisar e me encantar por este patrimônio da cidade e a produzir, junto com alguns alunos, o que viria a se tornar a exposição “Catopê Contemporâneo”, que ficou em cartaz no museu por dois meses, em 2017.
 
E como foi a exposição?
A exposição foi muito bem recebida na época. Houve grande visitação, embalada pela própria efervescência da cidade durante agosto, e pela identificação das pessoas com o tema. Desde então, sempre houve a ideia de tentar recuperar a memória das suas obras de alguma forma. Neste ano, devido à pandemia, muitos patrimônios imateriais, iminentemente dependentes do corpo e do contato, não puderam se manifestar. Em Mariana, a Procissão das Almas, que sai só uma vez ao ano, à 00h05 do Sábado de Aleluia, não pôde acontecer. Então, dentro do projeto “Cozinha Gráfica”, que coordeno, fizemos um videodocumentário da procissão, com filmagens do ano anterior, e o soltamos na internet exatamente no horário que ela deveria acontecer. Isso fez a diferença para as pessoas, trouxe conforto e manteve viva a memória da manifestação, e nos mostrou um caminho: poderíamos fazer a mesma diferença para Montes Claros, dessa vez, na forma de um site, contendo a documentação on-line sobre as Festas de Agosto, os Catopês, Marujos e Caboclinhos, a partir do resgate da exposição original.
 
O site está no ar?
Sim e ficará disponível por pelo menos mais um ano. O objetivo é que, durante este tempo, ele receba atualizações constantes sobre os Catopês, Marujos e Caboclinhos, seja na forma de obras que a eles aludam, seja na forma de textos de pesquisadores, de maneira que possa tornar-se, ao mesmo tempo, um referencial artístico e informativo.
 
Como está distribuído o conteúdo?
O site é dividido em seções. Na seção “Obras e Artistas”, podemos ver as obras que compuseram a exposição original separadas por cada artista, com textos informativos e fotos. O “Tour Virtual” tem sido uma atração à parte: ele foi construído pela arquiteta e artista Ingrid Moura, sob minha orientação, a partir da planta original do museu, e recupera a disposição das obras da exposição original, sua expografia. Como na internet perde-se o sentido espacial próprio de uma exposição, o objetivo é que o visitante sinta-se de fato dentro do local. As ações educativas foram realizadas com escolas da região pela artista da exposição Ludmila Rosário e estão documentadas. Uma das mais emblemáticas foi a construção dos capacetes de Catopê que as crianças fizeram, saindo todas paramentadas. Também há textos, com informações sobre as manifestações, tudo embalado pelos batuques originais dos Catopês.

“Catopê 2.0” vai oferecer uma nova exposição temática de artistas montes-clarenses. Como será e qual endereço para acessar? 
O endereço é https://catopecontemporaneo.com/2-0/. Durante o mês de agosto, os artistas colocarão obras nessa seção numa modalidade de exposição em processo, que se atualiza constantemente. São obras já pensadas para o meio virtual, que exploram o audiovisual e até a interação com os espectadores. As obras virão sempre acompanhadas por textos informativos que também eduquem sobre o tema.
 
SOBRE O SITE
Para o professor, o site é um esforço módico, mas sincero, de muitos artistas (Abias Gabriel, Gerlinde Astegger, Henrique Rodrigues, Isabella Ramos, Isabel Francine, Jão das Artes, Ludmila Rosário e Vinicius Ribeiro) para contribuir com a memória das Festas de Agosto e seus ícones neste ano atípico. Mas é importante ressaltar que os legítimos representantes e guardadores da tradição são os integrantes dos grupos de Catopês, Marujos e Caboclinhos e, principalmente, seus mestres. 

“Também cabe apontar que tem havido muitas outras iniciativas igualmente importantes e necessárias neste momento, como o Festival Agosto Vivo. Portanto, gostaria apenas de enaltecer a esses que se ocupam em preservar sua tradição, mesmo com todas as dificuldades e celebrar essas iniciativas que nos ajudam a todos neste momento, agradecendo também o apoio que temos recebido do público, dos jornalistas, dos representantes do Patrimônio Histórico de Montes Claros, da Universidade Estadual de Montes Claros e do Museu Regional do Norte de Minas”, conta.

Quem quiser visitar a exposição, o endereço do projeto é www.catopecontemporaneo.com 

O Instagram é https:// www.instagram.com/catopecontemporaneo/

Já o da Cozinha Gráfica, que faz o vídeo para presentear Mariana, é https://www.instagram.com/cozinhagrafica/ e https://www.youtube.com/cozinhagrafica/