O escritor Jean Mendonça lança neste sábado (25), a partir das 14h, no Vapor Benjamim Guimarães, em Pirapora, seu primeiro livro publicado, O Solo das Águas. Definida pelo autor como um romance autoficcional, a obra reúne memórias pessoais, ficção e a relação com o Rio São Francisco. O lançamento contará com sessão de autógrafos, exposição das ilustrações do artista Vinícius Ribeiro, apresentações musicais de Juliana Castro e Família Félix e será aberto ao público.
Nascido em Montes Claros, criado em Pirapora e atualmente morando no Rio de Janeiro, Jean Mendonça conta que o livro nasceu do desejo de transformar lembranças em literatura. Segundo ele, o processo criativo parte da memória, mas ganha novos contornos por meio da ficção. “Meu processo de escrita sempre parte de uma memória. Acredito que, no fundo, todo autor parte de algum acontecimento real para alcançar a imaginação e, a partir daí, provocar a criação artística”, afirma.
Na narrativa, o protagonista, chamado apenas de Homem-menino, retorna à cidade natal durante um Sábado de Aleluia. Às margens do Rio São Francisco, ele revisita lembranças da infância, da família e da construção da própria identidade. Entre as experiências retratadas está a relação com as duas mulheres que o criaram. “Na verdade, sou filho de duas irmãs que compartilharam a criação do mesmo filho. Essa experiência também está presente na obra. As duas mães aparecem na narrativa com pseudônimos, assim como o personagem central”, revela.
Mais do que cenário, o Rio São Francisco é um dos elementos centrais da obra. Para o escritor, as águas representam o ambiente onde sua identidade foi formada e conduzem a narrativa da mesma forma que conduziram sua própria trajetória. “Ela representa o ambiente onde minha identidade foi construída. Ao longo da leitura, o leitor acompanha esse processo seguindo um fluxo semelhante ao das águas do São Francisco: um percurso marcado pela memória, pelas transformações e pela travessia da vida”, reflete Mendonça. Esse percurso acompanha também a história do autor. Depois da infância em Pirapora, a trajetória passa por Belo Horizonte e chega ao Rio de Janeiro. No romance, porém, esse caminho acontece em sentido inverso: o Homem-menino retorna às origens para revisitar as próprias memórias, em uma narrativa que entrelaça passado e presente.
O título do livro também surgiu desse processo de criação, desenvolvido ao longo de dois anos. “Para ser fiel às minhas memórias, recriando-as a partir de sentimentos e de circunstâncias reais da minha vida, foi preciso passar por um processo intenso. Não foi simples. Foi um mergulho profundo, em águas profundas. Mas, no fundo dessas águas, havia um solo. E é possível ficar de pé mesmo debaixo d’água. É dessa imagem que nasce o título do livro”, conta Jean.
A escolha do Vapor Benjamim Guimarães para receber o lançamento também dialoga diretamente com a narrativa. Construído em 1913, nos Estados Unidos, o barco é um dos últimos vapores movidos a lenha em operação no mundo e um dos principais símbolos históricos e turísticos de Pirapora. Na obra, a embarcação aparece como parte das lembranças do protagonista. “Para mim, é um orgulho imenso realizar o lançamento do meu primeiro livro publicado nesse espaço. O Solo das Águas fala justamente sobre as águas do Rio São Francisco e, em alguns momentos da narrativa, há o encontro desse homem-menino com o Vapor Benjamim Guimarães”. Para o autor, lançar o livro a bordo da embarcação amplia o significado da própria obra. “É falar de memória em um lugar que é memória. Há uma simbologia muito forte nisso: um livro de memórias lançado em um vapor que é memória viva”, destaca o autor.
Jean Mendonça afirma que espera provocar no leitor a mesma transformação vivida durante o processo de escrita. “Minha expectativa é que o leitor também se transforme, assim como eu me transformei durante a escrita e continuo me transformando cada vez que releio a obra. Acredito na arte e na literatura como instrumentos capazes de provocar algum tipo de transformação na vida das pessoas”, finaliza.

