
Discreto fora do palco e direto nas palavras, Pedro Boi construiu uma trajetória que acompanha — e ajuda a explicar — parte da história recente da música no Norte de Minas. Aos quase 80 anos, ele evita discursos grandiosos e resume a própria identidade de forma objetiva: “sou um cara simples e muito tímido, que viu na música uma forma de comunicar um pouco mais com as pessoas”.
A relação com a música começou ainda na infância, sem planejamento ou estratégia. Aos 9 anos, já tocava sanfona; aos 11, recebeu o primeiro cachê, em uma festa junina de bairro. O dinheiro, no entanto, não chegou a ser aproveitado. “O cachê ficou dentro do sutiã da minha mãe. Ela confundiu, pensou que eu tinha feito alguma estrepolia pra ter aquele tanto de dinheiro”, relembra. O episódio sintetiza um contexto em que a atividade artística ainda não era plenamente reconhecida como trabalho.
Sem formação formal consolidada, Pedro desenvolveu o próprio aprendizado a partir da observação. “Aprendi vendo um professor ensinando pra outra pessoa”, conta. Com um violão emprestado por um amigo, começou a praticar e consolidou uma forma de tocar marcada mais pela vivência do que pela técnica acadêmica. “Peguei um violão emprestado com um amigo que também estava estudando no conservatório… ele ajudou um pouco”, diz, ao citar o início do processo.
A formação musical também passa pelos espaços tradicionais da cena local. Festivais, bares e bandas de baile foram determinantes nesse percurso. “Festivais, barzinhos e banda de baile são as escolas de um artista ou cantadô, com certeza”, afirma. Foi nesse ambiente que construiu repertório e presença de palco, em diálogo com um momento específico da música brasileira.
Segundo ele, havia uma proximidade entre a produção regional e a MPB, com influências que circulavam entre diferentes territórios. “O momento musical regional e a MPB estavam andando muito próximo, lado a lado”, explica. Nesse contexto, referências como Luiz Gonzaga — “minha primeira referência” — deram lugar, ao longo do tempo, a outros nomes como Roberto Carlos, Belchior, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Milton Nascimento.
É nesse cenário que surge o Grupo Agreste, responsável por projetar o trabalho de Pedro Boi para além do circuito local. Embora ele não detalhe os fatores que levaram à rápida adesão do público, o período coincide com uma fase de forte circulação da música regional no país. A presença em trilhas de novela, nos anos 1980, ampliou ainda mais esse alcance. “Foi um impacto, que passou rápido, mas aumentou a responsabilidade”, avalia.
Após o fim do grupo, a carreira seguiu de forma independente, sem grandes estruturas de apoio. A sustentação veio de fatores pessoais e profissionais combinados. “Em primeiro lugar, o que manteve firme foi a nossa música, minha esposa e, é claro, meus filhos”, afirma. Ao longo dos anos, a opção foi manter coerência com o próprio trabalho. “Tento me manter fiel”, resume.
Mesmo com décadas de atuação, ele não fala em estabilidade. Prefere destacar a continuidade. “Eu tô aí, aos trancos e barrancos. Logo logo teremos novidades”, diz. O principal desafio, segundo ele, permanece inalterado: “é sempre mostrar um trabalho de qualidade que nós sempre tivemos ao longo dos anos”.
A possibilidade de abandonar a carreira é descartada sem hesitação. “Nunca, nunca. Se fosse assim, não valeria a pena fazer música”, afirma. A resposta indica uma relação que ultrapassa o campo profissional.
Ao se posicionar no cenário atual, Pedro Boi se vê como parte de um processo em andamento. “Sou uma ponte pra uma nova geração que tá por vir”, diz. A fala não aponta para encerramento, mas para continuidade — ainda que em outro ritmo. “Já tô caminhando pra oitava década”, completa.
Sem recorrer a idealizações, a trajetória de Pedro Boi se sustenta na permanência e na adaptação. Entre festivais, palcos improvisados, rádio, televisão e circuito independente, ele segue operando no mesmo eixo que definiu o início: fazer da música um meio possível de comunicação.
