São mais de seis meses enfrentando momentos difíceis de isolamento social, em que somos convidados a manter a distância corporal. Há quem entenda que é para fugir das pessoas. Não! Devemos nos manter ativos. Fazer o máximo de atividades que pudermos, além de criar oportunidades de encontros, diálogos e colaboração. 

O professor e reitor da Unimontes, padre Antônio Alvimar de Souza, entende que, neste momento, precisamos mais de Deus e das pessoas. “Quanto mais sozinhos, mais fragilizados ficamos. O contato com Deus e com as pessoas institui novo sentido para nossa vida”, diz.

Já o professor do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) e pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Wendell Lessa Vilela Xavier, acredita que o momento é de oferecer o caminho, Jesus Cristo, às pessoas. “É uma excelente oportunidade de mostrar que irmãos do passado – e alguns ainda hoje – foram obrigados a se afastar uns dos outros em razão das perseguições e mortes, mas mantiveram a sua fé viva e frutífera”, conta.

Nosso bate-papo de hoje é com essas duas personalidades de Montes Claros que buscam levar a fé, a esperança e o amor a todos que os procuram, seja nos templos religiosos ou fora deles.
 
O tempo é de incerteza, medo e ansiedade. É natural que busquemos um caminho que nos dê conforto, confiança e paz? Que caminho seria?

Padre Alvimar: Com certeza, o ser humano sempre procurou caminhos. As angústias fizeram e fazem parte do coração e da história pessoal de cada pessoa. Todos precisam de caminhos. O caminho indica o próprio sentido da vida. No contexto da pandemia, há muitos caminhos, mas encontramos dificuldades em encontrar sentido. O caminho interior parece a melhor solução. Na verdade, a cultura materialista o impede de ser visualizado neste momento.

Pastor Wendell: Embora em tempos chamados pós-modernos a pluralidade seja um caminho quase sagrado, o cristianismo sustenta que só há um caminho de segurança: Jesus Cristo. Segundo as Escrituras, qualquer outra forma de buscar conforto e paz fora de Jesus Cristo é inútil, ainda que tangencialmente a ele, é placebo, que parece curar a ferida, mas não resolve o real problema do ser humano. Quase sempre, as propostas apresentadas colocam o homem como centro da solução, quando, na verdade, não há solução que possamos criar por nós mesmos.
 
O que fazer com todo esse tempo que obriga cada um a estar consigo?

Padre Alvimar: Administrar o tempo é um grande desafio. O tempo é uma invenção humana. O tempo pode ser longo ou curto. Depende do sentido e criatividade que você atribui a ele. Para algumas pessoas, o tempo não passa, para outras, o tempo é muito curto. Pensar o tempo, organizar o tempo e produzir sentido em cada momento. Fazer da vida um tempo de gratidão. Aprender a conviver com você e com as pessoas que estão ao seu redor.

Pastor Wendell: Eu creio que, mesmo em situações de crises graves e profundas, há sempre algo que tiramos de proveitoso. A pandemia, embora traga resultados terríveis, ceifando milhares de vidas no Brasil e milhões no mundo, permitiu que nos aproximássemos mais dos membros de nossas famílias e de nós mesmos. Ainda que obrigados, alguns perceberam a necessidade de “estar junto”, quer do outro quer de si mesmo. E isso certamente tem implicações relevantes, porque, ao sermos isolados das outras coisas, temos a tendência de perceber o que é mais importante. 

 
Que dicas de leitura dão para estes dias de isolamento?

Padre Alvimar: Neste tempo, a leitura é fundamental. Exercícios físicos, orações e amizades. Leituras que valorizem a vida, pessoas, natureza e Deus. Temas como amizade, sabedoria, equilíbrio, esperança, solidariedade e amor devem vir para nossa pauta.

Pastor Wendell: Eu tenho lido autores clássicos da literatura mundial, como Graham Greene e Fiódor Dostoiéviski. Do Greene, “O poder e a glória”. É um livro excelente. Ele apresenta conflitos existenciais e religiosos de um padre perseguido por um regime autoritário no México. Ele precisa escapar da morte. Alguns de seus colegas não suportaram a pressão e se renderam à apostasia, abandonando seus princípios religiosos. Do Dostoiévski, li “Memórias do subsolo” e “O duplo”. Em ambos, o autor apresenta também conflitos existenciais de personagens que precisam lidar com os seus fracassos diários e com a incapacidade de gerir sua própria vida. Há livros maravilhosos que devem ser conhecidos. A lista é imensa.Padre Antônio Alvimar de Souza, reitor da Unimontes, e o pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Wendell Lessa, falam das dificuldades desse momento

Em tempos de pandemia, é possível que as angústias e tendências depressivas se evidenciem ainda mais? Quais recursos sua religião oferece para as pessoas que enfrentem essas situações?

Padre Alvimar: Com certeza. O isolamento evidencia e acentua aspectos de nossas convivências. O cotidiano marcado pelo labor nos mantém afastados. Horários, jornadas, distâncias, agendas longas. Tudo contribui para o acento de um modo de viver individualista. A pandemia obrigou proximidade, convivência e socialização de espaços. Os desequilíbrios ficam mais evidentes. Temperamentos, indisposições. A solidão balança a vida. Muda rumos e evidencia comportamentos destoantes. A religião deve oferecer ambiente de convivência saudável, momentos de escuta e acompanhamento individualizado.
Pastor Wendell: Geralmente, quando estamos sozinhos, isolados, as angústias se tornam mais evidentes. Isso acontece porque deixamos de ouvir os barulhos de fora para ouvirmos o coração. Provérbios nos ensina que “é do coração que procedem as fontes de vida”, por isso precisamos dar uma atenção especial a ele (Pv 4.23). O profeta Jeremias diz que o nosso “coração é mais enganoso do que todas as coisas” (Jr 17.9), por isso é muito importante que saibamos distinguir a sua voz e não nos deixarmos contaminar pelo pecado que o manipula. O remédio, segundo as Escrituras, é encontrar a paz no Senhor Jesus Cristo e não no nosso coração. Em João 14.27, lemos o que Jesus Cristo disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27). O cristão não precisa temer as adversidades. Ele precisa confiar no governo soberano de Jesus Cristo sobre todas as coisas. Nada está fora do controle dele. Então, precisamos “entregar o nosso caminho ao Senhor” (Sl 37.5).

Como tem sido exercido o pastoreio individual, de aconselhamento e visitação, por exemplo, nesses momentos de isolamento social? Como se encontrar com as pessoas?

Padre Alvimar: A atividade de pastor continua fecunda. O pastoreio é exatamente a atividade do cuidado. A pandemia tem exigido cuidado, assim, este momento tem pedido atenção. As novas tecnologias têm favorecido o encontro. Lives e salas virtuais têm colaborado para aproximar pessoas. O encontro se faz de uma maneira competente diante de aparelhos que favorecem o encontro com as pessoas.

Pastor Wendell: Esses são desafios para muitos pastores, porque, de fato, pastorear é cuidar, alimentar, curar as feridas, estar constantemente perto. Mas o momento sui generis que estamos vivendo nos afastou fisicamente. E este é o ponto: foi um afastamento físico, mas não espiritual nem tecnológico. Graças a Deus, temos recursos para falar com as pessoas. Não dependemos, exclusivamente, do contato físico. Podemos telefonar, mandar mensagens, fazer lives, dentre outros recursos. E os pastores precisam aprender a fazer isso. E é muito importante que os pastores mandem mensagens de conforto e de perseverança. Cobranças nessa hora me parecem descabidas. Insistências com programações, atividades, como que para prender as pessoas são despropositadas. O momento é de oferecer o caminho, Jesus Cristo, às pessoas. É uma excelente oportunidade de mostrar que irmãos do passado – e alguns ainda hoje – foram obrigados a se afastar uns dos outros em razão das perseguições e mortes, mas mantiveram a sua fé viva e frutífera
. Não obstante o isolamento, elas permaneceram crentes. O isolamento não causará apostasia. A apostasia acontece no coração, não no corpo. Se alguém deixar de ser crente, é porque nunca foi de verdade (Hb 6.4-8; 1Jo 2.19).
 
Muitas pessoas têm perdido seus entes queridos nesses dias em razão da Covid-19. Várias pessoas morrem diariamente. A morte é uma realidade inevitável. Como lidar com a morte, especialmente quando somos pegos de surpresa?

Padre Alvimar: A morte assusta e angustia. A morte faz que sintamos frágeis e impotentes. A pandemia trouxe o medo da morte e a colocou como realidade no cenário de nossa existência. Medo de morrer. Cenas de morte. Estatísticas de mortes passaram a ocupar a vida diária das pessoas. Lidar com a morte é um grande desafio. Ela é a passeia que não desejamos no horizonte de nossa existência. A morte não é uma experiência futura. A morte é parte constitutiva da nossa vida. Viver e morrer.

Pastor Wendell: De fato, a morte é uma realidade para todos nós. Todos nós morreremos. E não há outra forma de dizer: a morte é o salário pelo pecado. Por isso, a única maneira de encontrar conforto na morte é crer em Jesus Cristo, que venceu a morte e garantiu vida eterna a todos os que creem nele. Apesar de doer muito, de nos causar tristeza, de não ser algo natural, porque não fomos criados para morrer, aquele que crê em Jesus Cristo recebe o conforto do Espírito Santo e encontra paz nele.

“A pandemia tem exigido cuidado, assim, este momento tem pedido atenção. As novas tecnologias têm favorecido o encontro. Lives e 
salas virtuais têm colaborado para aproximar pessoas. O encontro se faz de uma maneira competente diante de aparelhos que favorecem o encontro com
as pessoas”. Padre Antônio Alvimar

“Geralmente, quando estamos sozinhos, isolados, as angústias se tornam mais evidentes. Isso acontece porque deixamos de ouvir os barulhos de fora para ouvirmos o coração. Provérbios nos ensina que ‘é do coração que procedem as fontes de vida’, por isso precisamos dar uma
atenção especial a ele”. Pastor Wendell