
Os Catopês representam um dos principais patrimônios culturais de Montes Claros e do Norte de Minas. Com origem nas irmandades negras do período colonial, ligadas a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e ao Divino Espírito Santo, o grupo preserva há mais de 180 anos tradições de fé, resistência e cultura afro-brasileira, mantidas vivas nas Festas de Agosto.
O professor aposentado de Antropologia da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Gy Reis Gomes Brito, afirma que os Catopês estão entre as mais importantes manifestações culturais de Montes Claros. Com raízes que remontam ao século XIX, o grupo integra as tradicionais Festas de Agosto e representa um legado de resistência, ancestralidade e preservação da herança africana no Norte de Minas.
“Manter a cultura dos Catopês viva em Montes Claros é vital para preservar a identidade, a memória afro-brasileira e a história da formação social do Norte de Minas. Os principais desafios para a continuidade dessa tradição incluem a transmissão geracional para os jovens e a dependência de apoio financeiro”, observa o antropólogo.
“Há quase dois séculos, os Festejos de Agosto transformam a paisagem urbana da cidade e proporcionam aos montes-clarenses um momento de celebração da sua própria identidade. Esse sentimento de pertencimento é alimentado não apenas pela fé e devoção a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e ao Divino Espírito Santo, mas também pelo orgulho coletivo de sermos protagonistas de uma das tradições culturais mais autênticas e importantes do Brasil”, conclui o professor.
LEGADO DE FÉ E AMOR
Ao longo das décadas, mestres e guardiões tiveram papel fundamental na preservação dos Catopês, transmitindo aos mais jovens os rituais, cantos e significados da tradição. Entre eles, destacou-se o saudoso Mestre Zanza, referência na valorização da manifestação e na formação de novas gerações. Hoje, o legado segue com Mestre Zanza Júnior, que mantém o trabalho de fortalecimento da cultura popular e das raízes afro-brasileiras em Montes Claros.
“O maior legado que meu pai, o saudoso Mestre Zanza, deixou foi a certeza de que a tradição só permanece viva quando é compartilhada com amor, respeito e compromisso, sempre a partir do altar familiar. Ele dedicou toda a sua vida ao Primeiro Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário e à direção dos Festejos de Agosto, formando pessoas, fortalecendo famílias e ensinando que ser Catopê é carregar uma missão de fé, resistência e ancestralidade. Como coordenador-geral das Festas de Agosto, sempre dizia que os tambores não chamam apenas para a festa, mas para a união do nosso povo e para a preservação da nossa história. Abriu espaço para crianças, jovens e adultos, homens e mulheres, sempre com respeito à diversidade, aprenderem os cantos, os toques, os passos e, principalmente, os valores que sustentam essa tradição há quase dois séculos. Hoje, esse legado permanece vivo em cada integrante que veste a farda com orgulho, em cada criança que aprende a tocar um tambor e em cada pessoa que compreende que a cultura popular é um patrimônio que precisa ser preservado e transmitido às futuras gerações”, afirma Mestre Zanza Júnior.
Para o mestre, preservar os Catopês significa garantir que essa herança continue fortalecendo a identidade cultural de Montes Claros e do Norte de Minas. “A tradição precisa ser vivida, respeitada e transmitida. Tenho convicção de que, enquanto houver pessoas comprometidas em ensinar, jovens dispostos a aprender e famílias mantendo essa herança de geração em geração, os tambores dos Catopês continuarão ecoando por muitas décadas. Toda essa caminhada começa no altar familiar. Assumir hoje a missão de Mestre do grupo mais antigo e ancestral da região é motivo de muito orgulho, mas também de profunda emoção. Para eu ocupar esse lugar, meu pai precisou partir, e essa é uma dor que permanece. Na verdade, eu preferia que ele ainda estivesse ao meu lado e que eu continuasse como contramestre. Nos seus últimos dias, ele me transmitiu suas orientações, sua missão e seu legado. Agora, sigo honrando tudo o que aprendi com ele, mantendo viva essa tradição em respeito aos nossos ancestrais e à memória do Mestre Zanza”, completa.
