Não são poucas as cenas com vacas e bois em “Querência”, filme de Helvécio Marins Jr. passado no interior mineiro que estreia hoje nos cinemas. Por estas ironias do destino, o diretor não poderá acompanhar o lançamento no Brasil porque foi atropelado por um touro. Ele rompeu três ligamentos do joelho e teve que reconstituir a rótula e o menisco.

E o mais irônico de tudo é que o acidente não aconteceu na região de Unaí, cenário do filme e atualmente endereço fixo de Marins no Brasil. Foi em Alentejo, zona rural de Portugal, onde ele permanece de “molho”, ainda sem conseguir firmar o pé no chão. “Estava fazendo uma brincadeira, abri a porteira e veio um touro por trás e me jogou para o alto”, detalha.

Se a vida imita a arte, Marins é um grande exemplo, como ele mesmo admite. “Tudo em mim é muito verdadeiro. Eu não sou aquele cara que nasceu na capital e vai para o interior filmar. Eu vivo esta realidade 24 horas por dia. Eu vivo e gosto”, afirma. Pouca gente sabe disso: o cineasta geralmente mora nos lugares onde produz as suas obras.

Foi assim com “Girimunho” (2011), quando permaneceu por três anos em São Romão, no Norte de Minas, nas casas de duas senhoras que protagonizam a história. “Elas até brigavam para ver onde eu ficaria. Eu preciso disso, de estar ao lado deles. Tem um momento entre a decisão de fazer, a escrita do roteiro e a filmagem em que preciso estar 70%, 80% do meu tempo ali”, explica.

Este trabalho de observação do dia a dia é passado para a dramaturgia. “Claro que escolho o que vai e o que não vai entrar. ‘Querência’ era praticamente outra história antes de acontecer o assalto que transformaria a vida do Marcelo. Se eu não estivesse ali, não teria tantos detalhes do que aconteceu”, registra. 

Marcelo é um dos personagens centrais, vítima do roubo de vacas que serve de combustível para o filme. O episódio gera um retrato desglamurizado da vida no campo. “Aquilo tira os pés do Marcelo do chão, que estavam bem fincados na terra, provocando uma sensação de que aquele mundinho dele tivesse ruído. E o filme é sobre a reestru-turação dele”.

O longa-metragem é ficcional, mas beira o documentário na maneira como acompanha os acontecimentos. “(O documental) Está na minha alma, no meu coração, no meu sangue. O princípio dos meus filmes é sempre documental, mas uma coisa não vive sem a outra. Não vou conseguir o nível de interpretação dos personagens, na parte ficcional, se não tivesse esta amizade com eles”.

Os diálogos ganharam uma atenção especial, de forma a “não entregar tudo” de bandeja para o público. “Se não, fica sem sutileza, muito feio. Boa parte dos diálogos dos filmes são bem ruins. Se eles são discretos, já são um elogio para mim”, assinala. 

Em muitas das falas, sobressai um quê político, que, segundo Marins, vem muito dos próprios atores, manifestado principalmente nos versos de narradores de rodeio. “Isso me lembra o rap ou o cordel. Ali eles também conseguem fazer um tipo de protesto”.