A maior fonte de inspiração de Fernando Oliveira devem ser os seus sentimentos íntimos e sua relação com as coisas e pessoas. Aos 76 anos, o escritor, poeta, desenhista e médico veterinário sanitarista é o nosso entrevistado da semana. Ele é o convidado especial deste domingo, na série on-line Cultive.com. 
 
Conte-nos sobre suas origens e influências literárias e como iniciou sua carreira de escritor e poeta.
As minhas primeiras influências literárias foram proporcionadas pela Bíblia Sagrada, pela literatura de cordel e pelos poetas românticos brasileiros, principalmente Castro Alves. Comecei a ler seriamente, a escrever poesia e a trabalhar em emprego remunerado aos 11 anos. Nesse mesmo ano, conheci o trabalho dos realistas Julio Ribeiro e Émile Zola, o que provocou uma considerável fissura na minha educação protestante. Aos 16 anos, morando em Jequié, que possuía uma boa biblioteca pública, tive acesso à coleção dos Clássicos Jackson, e consequentemente à Divina Comédia, à Ilíada, à Odisseia, às Geórgicas, ao Paraíso Perdido, ao teatro e à poesia de Shakespeare. Ainda nessa biblioteca conheci os poetas modernistas brasileiros e mais T.S.Eliot, Rainer Maria Rilke, Fernando Pessoa, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Hoelderlin, Liliencron. Os autores que mais me influenciaram nessa fase foram Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, T.S.Eliot, Rainer Maia Rilke e Castro Alves. 
 
Qual é o seu maior parceiro musical? Fale um pouco dessa parceria.
A minha principal parceria musical é com a cantora e compositora Rosa Passos, com quem construí mais de 200 canções. Nos anos 1970, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) realizava festivais universitários de música. Em 1973, fiz a minha primeira canção, em parceria com o aluno de engenharia Antonio Carlos Senna, que inscreveu a música no festival desse ano, e ficamos com o primeiro lugar. Logo depois, aconteceu uma reunião de ganhadores de festivais, e nesse evento conheci Rosa Passos, que havia ganho várias vezes o primeiro lugar. A identificação foi imediata e nesse mesmo ano começamos uma parceria musical e uma forte amizade, que duram até hoje. 
 
Fale um pouco sobre o seu “Livro das Estações” (2014).
Posso dizer que “O Livro das Estações” é o resultado da forte impressão que me causou a audição da Suíte do bailado “A Sagração da Primavera”, de Igor Stravinsky. A princípio, pensei em escrever uma série de poemas seguindo o modelo do bailado, daí porque comecei com os “Prenúncios da Primavera” (os poemas “Setembro”, “Roseira” e “Vozes da Primavera”), passando depois aos “Jogos de Rapto” (os poemas “Madrigal” e “Entre as Cabras”). Viriam depois a “Sagração da Eleita” e “O Sacrifício”, mas a essa altura eu já resolvera escrever sobre as quatro estações como metáforas de quatro fases da vida humana: a juventude, a idade adulta, o envelhecimento e a velhice. O livro foi escrito ao longo de 20 anos, entre 1977 e 1997, e foi fortemente influenciado pelo meu próprio amadurecimento. São 40 poemas, dez para cada uma das estações. O fenômeno propriamente meteorológico, climático, se confunde com os sentimentos e sensações experimentados pelas pessoas em cada fase da “estação” da vida em curso.
 
Como você recebeu o convite da montes-clarense Berenice Chaves para participar da Série Cultive.com?
Em 2015, Berenice Chaves estava recebendo um grupo de músicos e poetas baianos e mineiros para uma ceia ao fim de uma tarde. Um deles falou-lhe de mim e perguntou se poderia levar-me à sua casa. Ela já conhecia o meu trabalho musical com Rosa Passos, sabia da minha amizade com a maioria dos convidados e consentiu com a minha presença. Ficamos amigos a partir daí e ela conheceu melhor o meu trabalho e me convidou para o projeto.

O que você espera desse projeto on-line, e como você está lidando com os eventos via internet?
Espero que o Projeto “Cultive” me possibilite dar-me a conhecer a um público que ainda não tem conhecimento do meu trabalho, bem como abrir aos que já me conhecem aspectos da minha vida pessoal e literária, da minha maneira de trabalhar, minhas preferências e meus projetos. Uma das minhas maiores expectativas era a de conhecer novos artistas, o que tem acontecido e me deixado muito satisfeito. A exemplo da maioria das pessoas da minha idade, tenho uma história e uma prática digamos analógica, e foi preciso um certo esforço e muita boa vontade para me adequar à era digital. Mas creio que já posso me considerar inserido nesse novo mundo. Assisto e participo de lives, faço parcerias musicais com compositores de outros estados e países e sou membro de vários grupos .
 
Quais seus desafios daqui pra frente?
Tenho três livros de poemas inéditos, um já negociado com uma editora e deverá ser lançado em janeiro. Escrevi canções em parceria com o compositor Carlos Pitta, com vistas à gravação de um CD, e esse projeto encontra-se em fase de captação de recursos.

Série Cultive.com
Data: Domingo, 1/11
Horário: 20h