
“Anistia 79”, novo longa-metragem de Anita Leandro, chega a Montes Claros em sessão do Circuito Embaúba, promovida pelo Cinema Comentado Cineclube, nesta quarta-feira (16), às 19h, no Museu Regional do Norte de Minas, no Corredor Cultural. A exibição é gratuita e aberta ao público, e o filme tem classificação indicativa de 12 anos.
Premiado na competição Olhos Livres e Júri Popular na Mostra de Cinema de Tiradentes, o documentário parte de imagens inéditas da Conferência Internacional pela Anistia e as Liberdades Democráticas no Brasil, realizada em Roma (Itália) em junho de 1979. Os registros convidam o público a julgar os crimes do passado e elaborar uma memória da ditadura militar. Essas imagens, registradas por dois exilados, ficaram guardadas num porão, em Paris, por quase meio século, até que Anita Leandro encontrasse uma cópia do material em cassetes mini-DVs, sem som, em uma biblioteca da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, especializada em questões políticas da América Latina.
De acordo com a diretora Anita Leandro, ao ter acesso às imagens, reconheceu personagens importantes da resistência à ditadura militar. “A bibliotecária me colocou, então, em contato com Hamilton Lopes dos Santos, o autor do material de arquivo”, conta. Exilado em Paris, durante a ditadura, Hamilton alugou uma câmera, reuniu uma pequena equipe e partiu para Roma, sem dinheiro e sem experiência em cinema, movido apenas pela vontade de deixar um registro do evento para as gerações futuras.
Quase meio século depois, essas imagens reacendem o debate sobre a manutenção do aparato repressivo da ditadura e a impunidade dos torturadores, mostrando que, no Brasil, o passado ainda não passou. Anistia 79 mostra esse material a pessoas que aparecem nas imagens e registra suas reações diante desses vestígios do passado. As filmagens são um diálogo entre passado e presente, que se prolonga na mesa de montagem.
Para o diretor do Cinema Comentado Cineclube, o jornalista Elpidio Rocha, a exibição de Anistia 79 permite o conhecimento sobre os “bastidores” do projeto de anistia no Brasil e reforça o papel do cinema como instrumento de encontro entre memória, história e cultura. “É um filme importante e necessário para tentar compreender as articulações políticas que marcam o país até a atualidade”, avalia.
A Lei da Anistia foi sancionada pelo presidente João Batista Figueiredo e completa 47 anos em 2026. Aprovada no final da Ditadura Militar, após forte mobilização popular, ela permitiu o retorno de exilados políticos ao Brasil e permitiu liberar presos por motivações políticas. Apesar de beneficiar opositores do Regime Militar, a Lei da Anistia também foi aplicada a agentes estatais acusados de tortura e repressão. Essa interpretação continua sendo contestada por organizações de direitos humanos e por especialistas, que exigem uma revisão da lei de anistia. Considerados crimes contra a humanidade, os crimes de tortura não poderiam ter sido anistiados. Ao recuperar imagens inéditas do processo que antecedeu a aprovação da Lei da Anistia, o documentário reabre um debate que permanece urgente no Brasil de hoje.
