
O Dia do Cinema Brasileiro, celebrado em 19 de junho, remonta à primeira filmagem realizada no Brasil, em 1898, pelo cinegrafista italiano radicado no Brasil, Afonso Segreto, que, ao retornar de uma viagem à Europa, registrou as imagens da Baia de Guanabara, no Rio de Janeiro. O cinema segue em reinvenção constante. Em décadas passadas, talentos de Montes Claros migravam para os grandes centros, como Alberto Graça, Carlos Alberto Prates Corrêa, Paulo Henrique Souto e Vânia Cattani, hoje reconhecidos na sétima arte.
Produções brasileiras ganham destaque em festivais internacionais e impulsionam o audiovisual no interior do país. Com a criação do curso de Cinema da Unimontes, as produções regionais se multiplicam. Max Alencar apostou no terror em seu primeiro filme, utilizando cenários, locações e atores da região. Segundo ele, editais ampliam as oportunidades para produtores independentes, embora os recursos geralmente cubram apenas os custos da produção. O cineasta também destaca que o gênero terror ainda enfrenta preconceito na indústria. “Isso é desde sempre, tanto que o maior filme de terror de todos os tempos, que é ‘O Exorcista’, não foi premiado, mas é consagrado e não ficou esquecido”, afirma. E lembra que recentemente a atriz Amy Madigan, aos 75 anos, ganhou o Oscar por um papel em filme de terror, o que representou um divisor de águas. “A geração Z vem consumindo muito, então pode ter uma reviravolta. Voltei a ficar empolgado, porque temos novas ferramentas que barateiam os custos e a gente consegue fazer efeit
os especiais, construção de cenas e sons com o celular”, destaca.
O cineasta Diego Dutra é autor de curtas, longas e está atento às portas que se abrem pelas leis de incentivo, porém, apesar da boa visibilidade do cinema brasileiro, diz que a indústria está longe de se consolidar como forte e sustentável. Para o cineasta, embora tenha havido um aumento de investimento público, situação que permitiu aos novos criadores realizarem seus projetos, esses mesmos editais têm critérios que interferem na liberdade criativa e induzem à valorização de pautas, recortes sociais e critérios ideológicos bem específicos. “Na prática, muitos realizadores de cinema não se sentem totalmente livres para criar porque sabem que, se não atenderem determinadas exigências dos editais, as chances de aprovação caem drasticamente”, disse.
O resultado, observou Diego, é “a quantidade crescente de obras com forte viés ideológico e politizado, que muitas vezes dialoga com a própria bolha que compartilha dessas ideias, sem conseguir atrair o público de modo geral”. O cineasta destaca que não é contra filmes políticos e sociais e que a pauta sempre vai existir, mas sente falta da alavancagem de filmes de ação, aventura, suspense ou comédia popular, sem bandeira ideológica e focada apenas no entretenimento. “Para mim, a indústria forte se constrói quando o público está no centro da equação. Na região tem muito talento, muitas histórias que são potentes, só que ainda falta um mercado sustentável. Por isso, acredito que a iniciativa privada pode desempenhar um papel fundamental, oferecendo mais liberdade criativa do que os editais e, principalmente, incentivando obras que nasçam de uma conexão com a audiência”, sugere.
Flávio Colares é cantor, compositor, produtor musical e, agora, cineasta. Ele lançou este mês seu primeiro documentário, “A História da Música Popular em Montes Claros”, iniciativa possível graças à Lei Paulo Gustavo. “É importante destacar que são estes recursos destinados à cultura que garantem a chegada de novos profissionais ao audiovisual. Os editais são o respiro para que novos profissionais sejam formados, com poucos recursos, mas utilizando ferramentas tecnológicas atuais”, disse. Flávio reforça que a criação do curso de cinema será um diferencial em breve, “para que haja mais profissionais habilitados, se unindo à teoria e à prática dos profissionais já existentes”.
No universo cinematográfico, as mulheres são minoria em cargos de direção, de acordo com levantamento da Agência Nacional de Cinema (Ancine), de 2016, mas houve avanço na participação feminina. No Norte de Minas, a professora universitária Andréa Martins é uma das representantes da categoria, que trabalha ativamente para manter o audiovisual em destaque. No momento, ela trabalha no documentário em produção “Beethoven do Sertão” e avalia haver um forte interesse pelo cinema, por parte principalmente dos jovens. E, para fomentar a produção, entende ser preciso conscientizar os empresários e potenciais patrocinadores da importância do investimento em cultura via leis de incentivo. “A gente percebe uma resistência muito grande aqui, sobretudo quanto à lei Rouanet, provavelmente por causa de toda uma campanha negativa que foi feita nos últimos anos. Então temos que encontrar um jeito de conscientizar esses empresários dos benefícios de usar as leis, porque isso gera empregos, movimenta a economia criativa e traz retorno muito importante para a imagem do patrocinador”, salienta.
