
O Dia Nacional do Livro Infantil, celebrado em 18 de abril, marca o nascimento de Monteiro Lobato, autor que ajudou a consolidar a literatura voltada às crianças no país. A data é usada para reforçar o papel da leitura na formação educacional e no desenvolvimento cognitivo desde os primeiros anos.
No Brasil, os dados mais recentes mostram um cenário contraditório. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024, indica que apenas 47% da população é considerada leitora — cerca de 93,4 milhões de pessoas. Pela primeira vez na série histórica, os não leitores são maioria: 53% dos brasileiros não leram sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento.
O estudo também aponta uma queda de 6,7 milhões de leitores em quatro anos, além de um dado mais crítico: 73% da população não concluiu a leitura de nenhum livro no período analisado. Na contramão desse cenário, crianças e adolescentes seguem como o grupo que mais lê no país. Entre 5 e 10 anos, a média é de 7,27 livros por ano; entre 11 e 13 anos, 7,56 obras.
O acesso aos livros ainda é um dos principais entraves. Um levantamento aponta que 24% das crianças de até 5 anos não têm sequer um livro infantil em casa, evidenciando desigualdades no estímulo à leitura desde a primeira infância.
Mesmo com limitações estruturais, o setor editorial infantil se mantém relevante, impulsionado sobretudo pelo ambiente escolar e pela mediação familiar. Iniciativas recentes também tentam ampliar esse acesso, como plataformas digitais públicas que disponibilizam acervos gratuitos.
É nesse contexto que surgem novos autores — inclusive entre o público infantil. Em Montes Claros, o jovem Inácio Versiani, de apenas 13 anos, vem ganhando espaço com a série de gibis Super Inácio, que acaba de chegar ao quarto volume, lançado durante o Festival Literário do autor Montes-clarense (FLAM).
A proposta da obra evoluiu ao longo do tempo. “A ideia original de quando eu era bem pequeno era ser uma turma da Mônica de super-heróis, mas agora que eu comecei a assistir mais animes e outras histórias que têm uma história fixa, eu resolvi fazer a mesma coisa com Super Inácio e dar uma história mais consistente”, afirma.
Os títulos seguem uma narrativa contínua. “Os gibis são uma sequência de histórias como se fosse uma saga. O primeiro e o segundo eu lancei no ano de 2023, o terceiro foi em 2024 e o quarto está sendo agora em 2026”, explica o jovem, que também assina as ilustrações das obras.
O impacto entre outros leitores da mesma faixa etária já aparece. “Eu acredito que as minhas histórias podem influenciar outras crianças, e eu fico muito feliz com isso, até porque eu conheço muitas pessoas que foram influenciadas pelas minhas histórias.”
Entre indicadores em queda e iniciativas pontuais, o retrato da leitura no Brasil mostra que o desafio não está apenas em formar leitores, mas em garantir acesso contínuo aos livros — um processo que começa na infância, mas ainda depende de políticas públicas e estímulo fora da escola.
“A literatura infantil é muito importante, tanto no processo de alfabetização quanto no processo de desenvolvimento cognitivo das crianças de um modo geral. Eu, como professora, sempre observei que o interesse pela leitura acaba fazendo com que as crianças se desenvolvam mais em vários aspectos: na questão social, na comunicação e na aprendizagem como um todo”, afirma a pedagoga Alessandra Fiuza.
Ela conta que sempre tive esse olhar como profissional, e agora, como mãe, mais ainda. “Meu filho está novinho, tem quatro meses, mas sempre que posso eu leio para ele, eu estimulo e incentivo. Penso que a criança aprende muito com aquilo que vê e com aquilo com que convive dentro de casa”, avalia Fiuza.
Sobre o número de leitores no Brasil estar diminuindo, ela reflete que, apesar da parcela de culpa do poder público, o que acontece dentro das casas é o que mais estimula o interesse da criança pela leitura. “O meu bebê tem quatro meses e eu já estou tentando apresentar livros para ele sempre que posso e estimulá-lo. Eu já percebo nele um interesse muito grande; ele é muito curioso. Ele olha os livros, tenta folhear — ele não consegue ainda, mas tenta — e observa quando eu estou contando histórias ou fazendo a leitura para ele. Isso mostra como, desde pequenininho, ele já tem essa noção e essa percepção”, conta.
Para ela, o ideal é que esse incentivo comece sempre primeiro na família e, depois, na escola e em outros ambientes, onde a criança terá a oportunidade de ser estimulada cada vez mais. “Eu, como professora, sempre tento estimular os meus alunos nessa questão da leitura; sempre crio um ‘cantinho da leitura’ na sala de aula”, relata. “Eu acredito que é dentro de casa que tem que começar todo esse cuidado, essa mediação e esse estímulo para que a leitura infantil seja cada vez mais aprimorada”, conclui.
