Bárbara Donhini e Renato Enoch compuseram “Pra Secar o Choro” há cinco anos, como uma reação ao sofrimento de um amigo, que havia acabado de perder o avô. Com a pandemia, a música saiu da gaveta e ganhou um contexto mais amplo, abraçando as milhares de perdas ocorridas no país devido ao vírus. “Quando nosso amigo recebeu a notícia, nós estávamos num sítio, junto com ele. A gente queria passar uma mensagem de conforto para ele e a música nasceu. Ao longo desse tempo, eu e o Renato também passamos por perdas e, no instante que a pandemia começou, sentimos a vontade de lançar a música”, registra Bárbara.
 
A compositora destaca que “Pra Secar o Choro” surgiu de uma maneira muito espontânea, minutos depois do recebimento da notícia da perda. “Na hora, a gente nunca sabe o que dizer. Eu fiquei travada, mas no momento que colocamos nossos sentimentos na música, saiu”. Bárbara assinala que, após a primeira versão, eles a revisitaram diversas vezes, buscando incluir sentimentos que significassem algo para eles mesmos. 
 
“Esse processo foi muito doloroso e a canção foi se desenvolvendo como a junção da vontade de botar algo para fora com um cuidado de escolher a melhor forma de contar”, sublinha.
A música traz referências do indie folk. “O fato de estarmos num sítio, no interior de Minas Gerais, no momento que compusemos, traz também uma relação com a natureza”, salienta. O videoclipe, por sinal, evidencia essa relação a partir do ciclo solar.
 
A compositora, que está no primeiro lançamento mas tem outras obras na gaveta, destaca que, após a chegada da música às plataformas digitais, muitas pessoas que perderam entes queridos durante a pandemia entraram em contato com a dupla. “Elas falam que a música teve o papel de ser um respiro no meio dessa loucura. Esse é o objetivo dela, ao trazer uma palavra de esperança”.




Primeiro
O vídeo com uma música sobre o coronavírus, divulgado na conta pessoal de Gabriel Gouveia no Instagram também viralizou. O engenheiro metalúrgico foi um dos primeiros a apresentar uma composição sobre o tema no Brasil. “Estava ainda muito recente, não sabíamos como lidar com o problema, o que acontece até hoje”, lembra.
 
Ele registra que começou a escrever “Pra nos proteger” como uma forma de reflexão sobre tudo o que estava acontecendo. Em certo trecho da canção, a letra destaca que o “corpo do rico também contrai”, como uma forma de mostrar que a pandemia “não tem classe, pegando todos de surpresa”.
 
Formado em Engenharia Meta-lúrgica, Gouveia compõe desde os 14 anos, mas foi a primeira vez que exibiu um trabalho musical de sua autoria. “Resolvi divulgar porque era algo que poderia acalentar as pessoas”, explica o músico, que, posteriormente, passou por momentos difíceis ao ver os pais com Covid. “Felizmente, eles tiveram sintomas leves”.



 

Compositor Sérgio Pererê recorre à arte como alento para momentos sombrios
Sérgio Pererê escreveu “Tempo de Viver” muito antes da pandemia ganhar as manchetes. Um dos carros-chefes do álbum “Canções de Bolso”, lançado em agosto nas plataformas digitais, a música ganhou outra leitura numa época em que o cotidiano se transformou radicalmente, com as pessoas se vendo obrigadas a ficarem distantes de familiares e amigos.
 
“Foi algo bem intuitivo mesmo. Nem sonhava que teríamos uma situação como essa. É uma canção que fala de travessia, de auto-perdão. As pessoas escrevem nas redes sociais, falando do bem que ela fez, mas atribuo isso ao poder que a arte tem, de ir além de seu tempo”, registra o cantor, que, durante a quarentena, viveu um intenso processo de composição.
 
Ele registra que o primeiro mês de isolamento social representou um momento de introspecção, em que ficou sozinho em seu apartamento, escrevendo músicas que, reunidas, ganharão a forma de outro álbum, já intitulado de “Canções de Outono”. “É disco sobre amor. Deu-me vontade de falar daquilo que é mais humano, do sentimento, da saudade”, salienta.
 
Pererê pondera que o amor é um tema constante de seu trabalho, mas nunca havia dedicado um álbum inteiro a ele. Foram quase 30 músicas compostas neste período falando exclusivamente do que o músico define, em tom divertido, de “sofrência”. Quando conseguir “se acalmar um pouco”, ele fará uma seleção de 13 para entrar no disco, planejado para 2021.
 
O artista não para. Só neste ano, o músico lançou três álbuns e um quarto está a caminho, com uma versão ao vivo de “Cada Um”, de 2018. Para ele, toda esta atividade é uma forma de “lançar luzes sobre o meu breu”. É uma espécie de antídoto contra momentos tão sombrios. “A criação lhe dá algum alento para prosseguir. Confesso que tenho buscado estas luzes para dar conta de mim mesmo”.

 

Música sobre silêncio no mundo será terma de curta-metragem
O cineasta Helder Quiroga estava no primeiro mês de isolamento quando viu, na TV, o depoimento de uma italiana, dirigido aos brasileiros, de que a terceira semana da pandemia seria o pior momento. “Na primeira semana, disse ela, estão todos ainda conversando, tentando se adaptar à nova rotina. Mas na terceira um silêncio muito grande tomou conta da Itália, tornando-se yma das coisas mais assustadoras que ela sentiu”, registra Quiroga.

 O depoimento mexeu com o realizador, que pôs os seus sentimentos na letra de uma música. Escrita em inglês, “The World in Silence” (“O Mundo em Silêncio”) ganhou melodia de Vitor Santana (do grupo Coladera) e será o tema musical de um curta-metragem, de mesmo título, dirigido por Quiroga e Antonio Lucio, em coprodução com a Colômbia. A história acompanha a vida do último sobrevivente no planeta e sua experiência com a solidão.