O compositor, baterista e percussionista carioca Robertinho Silva é um dos maiores e mais experientes talentos da música brasileira. Ele é o convidado para o próximo episódio da Série online “Cultive.com”, idealizada e produzida pela montes-clarense Berenice Chaves. A série vem apresentando gêneros como música, dança, artes plásticas e literatura, mostrando renomados artistas brasileiros e nomes famosos em Montes Claros. Nesta entrevista, Robertinho Silva, que é autodidata, fala sobre carreira e projetos.

Como começou sua história com a música?
Logo cedo, aos 6 anos de idade, já tirava som da lata fermento com milho dentro. Os ritmos e sons já faziam parte do meu ser. Essa paixão me levou a estudar. Escutei de um músico uma vez: “Você quer tocar bateria? Então, tem que estudar, porque o baterista que não sabe ler música é batedor de couro”. Então, somente aí, fui estudar. 

E a paixão pela bateria? 
Conheci um soldado que era baterista por meio de um amigo chamado Dário. A mãe dele tinha alugado um quarto para esse soldado. Fui correndo conhecer o baterista, já que essa era uma grande paixão. Lá o soldado me perguntou: “Você toca bateria?”. Respondi: “Eu toco!!”. Logo eu, que nunca tinha sentado em uma bateria. E foi assim. Eu, como carioca, ao invés de tocar um samba, toquei um baião. Como morava em uma comunidade nordestina, tinha grande influência dos ritmos do Nordeste. Meu primeiro trabalho foi em um baile em Bento Ribeiro, a convite desse soldado do Exército. Estava com 15 anos, toquei percussão. Aos 19 anos, já tocava nos bailes como baterista.
 
Quais suas participações musicais mais marcantes ao longo da carreira?
A primeira participação musical que foi muito importante para mim foi com o Cauby Peixoto, em 1964. Foi a partir daí que minha trajetória deslanchou. Em 1969, toquei com Milton Nascimento, e a partir daí, toquei também com todo o grupo da MPB, Egberto Gismonti, Marcos Valle, Chico Buarque. Gravei no disco Tom Jobim e Miúcha. E a trilha do filme “Pobre menina Rica”. Também o disco Milton, Milton Nascimento e Tom Jobim, entre outros nacionais e internacionais. Sou considerado o principal baterista do Clube da Esquina. Também com vários cantores e artistas da MPB, Gonzaguinha, Nana Caymmi e por aí afora!
 
Conte-nos um pouco sobre sua carreira solo.
A minha carreira solo começou em 1981, com o disco “MPBC - Música Popular Brasileira Contemporânea” - produzido por Roberto Menescal. O Luis Alves foi quem ajudou nesse pontapé inicial. Ele me indicou para o Menescal, que na época era o diretor da Polygram, e era o produtor da série Música Popular Brasileira Contemporânea. Grande parte dos músicos me surpreenderam gravando no meu disco. O outro trabalho foi “Bodas de Prata”. Depois gravei o primeiro trabalho de Duo, Jaquedu, com o baixista Ney Conceição. Um trabalho bonito. Atualmente, estou com muitas ideias. Quero gravar mais discos. Tem gente dizendo que não está se produzindo mais CDS, mas eu sigo a dica de um amigo. Ele diz que as rádios ainda precisam dos discos.

Como surgiu a ideia de escrever um livro?
O meu primeiro livro chama-se “Se Minha Bateria Falasse”. O nome surgiu em uma mesa de bar, numa conversa informal, com Paulo Nunes. O livro foi produzido durante três anos pelo jornalista Miguel Sá e conta parte da minha trajetória na história da música popular brasileira.
 
Qual a importância da música mineira em sua vida?
Eu costumo dizer que a música mineira me deu liberdade de expressão. Tudo o que aprendi e o que eu criava era aceito na música mineira. Consegui usar toda a minha criatividade, como baterista e percussionista. Vou te contar uma história: O folclore baiano - “A lua girou, girou...” - o Milton Nascimento liberava o estúdio para a garotada assistir à gravação. Nesse dia, todos foram liberados para tomar chope. Eu fiquei no estúdio, queria ver o que o Milton iria fazer. Quando o Milton começou a cantar eu peguei um par de baquetas e fui para a bateria e comecei a tocar. Na hora de escutar a música gravada, o Milton deu um sinal de ok com o dedo, sinalizando que tinha gostado. Então, é assim, eu tinha toda a liberdade. Outro dia eu toquei um tambor na música “San Vicente”, o Milton perguntou: “De onde vem esse tambor?”. Eu respondi: “Na minha rua passava Folia de Reis, deve ser de lá! “.A música mineira mudou a minha vida, como instrumentista, como baterista, como percussionista. 
 
Como você está lidando com o impedimento de realização dos shows, já que ainda está bastante ativo?
A pandemia tem me ajudado no exercício da minha criatividade, tenho estudado a percepção melódica, a diversidade rítmica brasileira, que é considerada a maior do mundo. Tenho feito muitos trabalhos em casa. Tenho estudado a percussão. A bateria vai voltar com uma forma percussiva.
 
Quais são seus projetos daqui para frente?
Dia 15 de dezembro vai ser lançado o meu novo livro, “Coração Mineiro”. Será um sarau online, na “Casa da Música”, com a participação de convidados. O livro conta um pouco das muitas experiências vividas nas Gerais. Estou com um projeto para começar um trabalho de aulas de percussão no Instituto João Donato. A proposta é montar uma banda de Percussão. Em 2021, completo 80 anos, e tenho o objetivo de desbravar o Brasil, tocando para brindar a vida com ritmos e sons.

Série Cultive online convida Robertinho Silva
Quando: Domingo, 6 de dezembro, 2020, às 20 h
Onde: www.youtube.com/Berenicechaves1