A demora em se conseguir um atendimento pediátrico pelo Sistema Único de Saúde em Montes Claros tem provocado reclamações generalizadas. A situação chegou ao ponto de pais terem que procurar atendimento em outras cidades. Para a representação do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais no Norte do Estado, o problema não está no número de profissionais, mas na baixa remuneração e nas condições de trabalho longe do ideal.

A dona de casa Virginia Martins relatou, via redes sociais, o drama que passou com o filho, de apenas 3 anos. O garoto sofreu convulsões na escola e precisou de atendimento médico. Ela procurou atendimento em três instituições da cidade.

“Levei para a Santa Casa e para o HU (Hospital Universitário), que informaram não ter previsão de atendimento, e o Aroldo Tourinho informou que não possuía ala pediátrica. Eu me vi desassistida”.

Depois de quatro horas de procura por hospitais públicos em uma cidade de 400 mil habitantes, Virgínia teve que se deslocar mais de 60 km para conseguir socorro para a criança.

“Fomos para a cidade de Capitão Enéas, onde temos parentes, e meu filho foi medicado. Ele estava com muita febre, foi uma situação desesperadora”, desabafa a mãe.
 
ROTINA
Mas nem todo mundo pode viajar como Virgínia fez. Na terça-feira passada, a demora no atendimento pediátrico voltou a ocorrer na Santa Casa. A professora Sônia Márcia dos Santos aguardava atendimento para a sobrinha de 8 anos. Ela estava indignada com o descaso do poder público com a saúde infantil.

“Encontrar pediatras disponíveis no SUS é um desafio. A saída é reestruturar o atendimento básico. Porque no particular você encontra atendimento, enquanto no SUS, não. O que me deixa indignada é que você tem esses dois tipos de atendimento na mesma instituição”, declarou.
 
PROPORÇÃO
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), para cada 100 mil habitantes seriam necessários 18 pediatras. Considerando-se a população de Montes Claros, o ideal seria 72 profissionais de pediatria. De acordo com o CRM local, 98 especialistas estão cadastrados no órgão com atuação na cidade.

O vice-presidente do CRM, Itagiba de Castro Filho, explica que nem todos os médicos especializados em pediatria atuam na área. Um dos motivos é a desvalorização do profissional.

“O problema é que nem todos os médicos especializados optam por trabalhar na área por diversas questões, entre elas a baixa remuneração, a insegurança no local de serviço, sobrecarga na jornada de trabalho e vínculo empregatício inadequado. Todos esses fatores fazem com que ocorra uma redução no quadro de atuantes”, conta.

Município nega desfalque
De acordo com Bruno Carvalho, diretor de atenção à saúde do município, há pediatras em todas as unidades de saúde da cidade.

“Há uma quantidade de dez a 12 pediatras atendendo de forma descentralizada. Importante destacar que nós temos hoje no município uma oferta de profissionais em atendimento pediátrico, além de plantonistas 24h no Hospital Doutor Alpheu de Quadros” diz o diretor.

O Hospital Universitário Clemente de Faria (HUCF/Unimontes) informou que o setor de pediatria disponibiliza 20 leitos para internação, com média mensal de ocupação superior a 95%.

A instituição esclarece que quando há demanda de pacientes superior à capacidade instalada, é solicitada a internação ou transferência via Central de Regulação. A Santa Casa de Montes Claros preferiu não manifestar sobre o assunto. (V.C)