Todo mundo tem ou conhece quem tenha um amigo ranzinza. Ele reclama de tudo, enxerga sempre a metade vazia do copo e ostenta um desânimo tão particular que basta chegar perto para ser contaminado. Características que podem ser simplesmente do temperamento de cada um, o negativismo extremo e a falta de entusiasmo deixam de ser traços da personalidade quando denotam um mau humor progressivo e duradouro. Nesse caso, é bom ligar o alerta. Rabugice crônica pode ser doença: a distimia.

Embora seja reconhecido pelo jeitão mal humorado e pelas opiniões quase sempre negativas, o biólogo Pedro*, de 36 anos, não reconhece a possibilidade de ser um “exemplar” distímico. “Não sou extremamente pessimista. Na verdade, tento encarar as coisas de forma realista, sem criar expectativas demais para não me decepcionar”, justifica o belo-horizontino que ganhou fama entre os amigos por enxergar sempre o lado negro das coisas. 

É justamente aí que mora o problema. Segundo o psiquiatra Frederico Garcia, professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, é comum que pessoas nessa situação mantenham normais as atividades cotidianas, não conseguindo, porém, sentir prazer em nada do que façam. 

“Alguns pacientes definem a distimia como a vida a 50%. O maior problema é que as pessoas se habituam a viver assim e passam a achar que o normal é ficar como estão. Esse, inclusive, é o principal motivo para que não se tratem”, diz Garcia.

MAIS DE 15 DIAS
A dica, ensina o diretor da Associação Mineira de Psiquiatria, é observar se a situação evoluiu. Para pior, claro. A distimia costuma adoecer pessoas que tenham tido episódios depressivos mal tratados ou não diagnosticados. E os quadros, que incluem mau humor, irritabilidade, incapacidade de perceber prazeres (anedonia) e falta de pulsões e de energia (hipobulia), principalmente, tendem a durar mais de 15 dias.

Esse viés negativo envolve três aspectos, explica o psiquiatra Mário Louzã, do Instituto da Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP): a percepção pessimista de si mesmo (“não valho nada”), sobre o meio social e profissional (“ninguém me valoriza”) e sobre o futuro (“nada vai mudar”). 

Para dar cabo dos pontos de vista sempre negativos, é preciso agir em duas frentes. Além de tratamento medicamentoso, assim como se faz com a depressão, é importante que o paciente faça algum tipo de terapia cognitiva. O objetivo é corrigir a visão, fazendo com que o paciente perceba como os pensamentos distorcidos prejudicam a própria vida. 

“Quando a terapia o faz enxergar o mundo com outros olhos, ele fortalece o pensamento positivo, abrindo espaço para melhorar a doença”, reforça Louzã.

Apesar de conviver harmonicamente com as características negativas que o fizeram ficar conhecido entre os amigos, Pedro reconhece a terapia como uma ajuda importante para uma mudança de foco. “Sempre ajuda qualquer pessoa que queira tentar sair dessa, digamos, visão”.

*Nome fictício