O decreto que limita a gratuidade do transporte público em Montes Claros, restringindo a oito as viagens diárias em ônibus urbanos para deficientes e idosos, é alvo de polêmica. Previsto para entrar em vigor esta semana, já motivou apresentação de queixa, ao Ministério Público Estadual, pelo vereador Valcir Soares.

A medida foi anunciada pela Empresa Municipal de Planejamento, Gestão e Educação em Trânsito e Transporte (MCTrans) por meio de portaria publicada no dia 23.
“Foi uma iniciativa infeliz. A portaria é totalmente ilegal. Temos lei específica que trata da gratuidade. Portaria é para normatizar procedimentos internos, não para modificar lei”, afirma o vereador.

De acordo com a Associação de Transporte Coletivo Urbano de Montes Claros (ATCMC), alguns usuários estariam utilizando de maneira irregular o cartão e prejudicando os pagantes.

“De janeiro a dezembro de 2017 tivemos 3.039.397 (viagens) de gratuidade, enquanto de pagantes foram 20.908.776. O que acontece é que muita gente estava utilizando de 15 a 18 vezes por dia. É um número alto. Alguns (usuários) que têm condição pior acabam pagando pelos outros. Mas para aquele idoso ou deficiente que tiver necessidade acima de oito viagens por dia, e comprovar isso, podemos programar o cartão de maneira que ele possa utilizar”, diz Jaqueline Camelo, da ATCMC.

O advogado Marcel Borges, que representou, na reunião com o Ministério Público, a Associação dos Deficientes de Montes Claros (Ademoc) e o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, afirmou que a medida fere a Constituição e o direito de ir e vir do cidadão, garantido em lei federal.

“Para mudar, precisa ter uma retificação legal. Limitar o acesso para coibir as fraudes não é justificativa. Isso é totalmente intolerante e vai na contramão do estatuto, que preconiza a inclusão. O idoso ou deficiente tem direito de se deslocar quantas vezes quiser, e isso inclui para o lazer. Vamos tentar anular este ato”.

Durante o encontro, o vereador Valcir Soares afirmou que o presidente da MCTrans, José Wilson Guimarães, teria alegado que a medida seria uma recomendação do Ministério Público. O promotor Rodrigo Guedes, porém, negou a existência de recomendação neste sentido e disse que o argumento do presidente da autarquia estaria equivocado. José Wilson Guimarães não foi encontrado para falar sobre o assunto.