Meu pai!

Plenarinho / 11/05/2018 - 06h15

Lá se foram os 100 anos e 3 meses 6 dias de vida. Olhando para ele que emitia os últimos batimentos cardíacos no interior do apartamento 308 da Santa Casa de Misericórdia, tive a chance , mais uma vez, de ficar ali, no silêncio da perda, olhando o seu semblante que estava tranquilo e em paz com a missão que Deus lhe deu. Travei um diálogo sem respostas, mas lhe prestando as minhas últimas homenagens. Decidi dedicar a minha crônica de hoje a ele, que coube a função de fecundar óvulos e de cumprir o dever de preparar os filhos para a vida.

Lembrando-me dele, é inevitável me lembrar de minha cômoda posição de filho. Digo cômoda porque ele sempre se preocupou em dar um generoso apoio para minha formação, todavia sem me conceder luxos ou extravagâncias. Era uma pessoa tranquila, detestava esbanjamentos e fazia questão de mostrar humildade. 

Meu pai me deixava à vontade e nunca me cobrou muito, nunca me chamou a atenção – quando o fazia, era com firmeza e somente no olhar, sobretudo sem deixar de me explicar suas experiências de homem que passou a maior parte da vida no volante de um caminhão pelas estradas do Brasil.

Às vezes eu discordava de tantas viagens dele, que quase sempre não ia às minhas festinhas de escolas, formaturas e eventos sociais de crianças e adolescente, deixando às vezes para minha mãe esta função. Mas, quando o seu caminhão despontava lá pelo Posto Kelly e Candango e começava a buzinar anunciando a chegada de sua jornada, era certeza de comida farta na mesa e também um dinheirinho para compra doce de leite em seu Geraldo Bento e ou então tomar uma boa vitamina de frutas no Bar Hollywood de Sr. Cícero, na rua Presidente Vargas. 

Adorava ter-me por perto e ouvir as minhas histórias de escola e de futebol e, até para aliviar minha mãe, me levava nas entregas das mercadorias nos Irmãos Pereira ou Algodoeira Diniz. Criticava os meus irmãos Joá e Zé Leite, principalmente o Zé, que colocava um objeto no “cano de descarga “ de seu caminhão que fazia muito barulho. 

Como todos os “nordestinos” – ele nasceu em Juazeiro, na Bahia – , era forte e corajoso. Diariamente consertava o seu caminhão na porta de casa, desmontando-o com uma velocidade incrível e ajustando as peças. Para meu pai, eu era uma espécie diferenciada, pois enquanto os “meninos “ viviam e vivem de caminhão, eu já não ligava tanto, pois frequentava mais a banca do velho Ducho Guimarães para folhear um jornal e ou uma revista.

Quando anunciei a minha ida para Belo Horizonte, onde poderia estudar e tentar trabalhar, incentivou-me junto à minha saudosa mãe e dos meus irmãos. Segui o caminho e voltei depois de muito anos formado em universidade. Sempre eu o encontrava na capital mineira, num Posto de Gasolina às margens da BR-040, onde levava para mim uma cesta com carne-de-sol, farinha, feijão, roupas lavadas pelas mãos de Dona Mocinha e um pacote de recomendações para ser um homem com limites e respeitar sempre ao próximo. Ele foi enterrado ontem em Montes Claros. Missão cumprida, foi um pai de verdade, que vai fazer falta. Vá com Deus, meu Velho, amigo, irmão camarada

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