Há quase cinco anos fiz umas filmagens na praia de Canavieiras (BA). Quando desci as imagens do celular para o computador, descobri desolada, que estavam invertidas e não havia como consertá-las. Imaginei um programa de edição de vídeo que arrumasse o caos que é um vídeo em tela grande de cabeça para baixo. Vertigem.

Não entendi o motivo de isso acontecer comigo e com ninguém mais. O que eu fazia de errado? Foi quando gravei alguns vídeos dos cachorrinhos brincando na Ilha do Desejo, Una, BA. Não deu outra. Baixei no notebook, e lá estava o mesmo problema. Foi instalado um programa para editar vídeos, mas era incompatível com o sistema e descartei.

Fiquei pensando no caso e deduzi que eu simplesmente fazia a gravação com o celular do lado contrário. E por quê? Por eu ser canhota, o natural para mim é colocar os comandos da tela do lado esquerdo, que é onde tenho maior habilidade. Como as máquinas são programadas para os 90% de destros, os excluídos somos nós.

Para não acontecer novamente, preciso me lembrar disso na hora de gravar, mas me distrai e repeti o erro ao filmar o Carnaval do Bairro Morada do Parque.

Quem “acha bonito” ser canhoto, ou pensa que quem usa a mão esquerda tem essa estranha “preferência” por livre escolha, deveria pensar um pouco. A condição de ser canhoto é determinada pela mistura de genes específicos, pressões culturais e o ambiente onde a criança é criada. Existem mais dúvidas que certezas. 

Meu avô, nascido em 1908, era canhoto e nunca nos contou isso. Certamente teve sua mão esquerda amarrada na escola, sendo obrigado a usar a direita, pois comia e escrevia com “a mão certa” e só foi dar mostras da mão preferencial quando se aposentou. Livre das exigências e convenções carregava o balde e molhava as plantas com a mão esquerda, assim como outros detalhes observados por seu filho Petronilho Júnior, que morava com ele.

Após o expediente, eu costumava visitar Vovô, e uma vez, estando nós dois no alpendre, precisei anotar alguma coisa e ele, me vendo escrever com a mão esquerda, falou em tom de censura: canhota! E eu: não sei de quem eu herdei isso, Vovô!

Fernando, meu filho, também é canhoto, assim como a sua avó paterna e dois tios do lado do pai. Enquanto a minha mãe tentou mudar o uso das mãos quando eu tinha três anos, comprando-me lápis de cor e tesoura, e me forçando a usar a mão direita, para desistir assim que eu começava a chorar, com meu filho foi diferente. Quando ele chegou a nossa casa, ainda pequeno, reclamando que os colegas o criticavam por ser canhoto (mesmo nome do Demônio), eu afirmei: a sua mão forte é a esquerda. E ponto final.

Sendo sinistro o mesmo que canhoto, o sinônimo sugere que usar a mão esquerda é algo próximo ao desastre, e apesar de os canhotos serem considerados inábeis, o oposto se dá. Num mundo feito para o uso da mão direita, e enfrentando dificuldades, os não destros fazem tudo que os demais fazem, e com máquinas que para nós estão pelo avesso. Essa é a verdade sobre meus vídeos de ponta-cabeça.