Depois de ver muitas vezes as imagens do edifício Wilton Paes de Almeida, de 24 andares, ruir em chamas no Largo Paissandu em São Paulo, fruto do descaso das autoridades e outros ingredientes quentes que por si sós já têm alto poder de combustão, é fácil imaginar o resultado de incêndios em lugares labirínticos. Sentimos compaixão pelo sofrimento dos sobreviventes acampados na rua, reunidos para não perder a força do conjunto, debaixo da poeira dos entulhos revolvidos por mãos e cães farejadores em busca de restos mortais, e depois pelas máquinas. A fogueira aconteceu na madrugada de 1º de maio, e nela vimos a dramática e frustrada tentativa de resgate de um morador. Foram identificados pelo menos 7 mortos.

Prédios antigos, formando uma arquitetura ilógica, com ampliações intermináveis e que, por mais que tenham um plano diretor, não apresentam alternativa razoável para fuga em caso de incêndio nos assustam. Prevemos ser fácil uma situação de fogo incontrolável, num lugar de grande movimento de pessoas doentes e seus hábitos pouco racionais em termos de uso da energia elétrica em recarregadores de celular perto de canalizações de oxigênio e de outros materiais inflamáveis. As instalações elétricas estão em permanente manutenção e substituição, mas têm seus pontos fracos. Nós humanos somos o ápice desses pontos.

Os doentes acamados, sem poder andar, ficam a mercê de quem os possa socorrer em caso de sinistro. Corredores e rampas intermináveis, várias barreiras, muitas portas, roletas e ar puro distante compõem a orquestra das possibilidades pirogênicas. Estariam os funcionários preparados para salvar quem esteja imobilizado por uma anestesia, por um coma ou ligado a uma máquina?

Não se trata de colocar lenha no fogaréu, mas o incêndio da Boate Kiss e seus 242 jovens mortos nos fazem lembrar a nossa incapacidade de enfrentar calamidades como aquela de 2013. Familiares foram presos e de acusadores viraram réus, já que a Justiça pode ser incompreensível.

Estive em visita, por alguns dias, na Santa Casa de Montes Claros, uma entidade datada de 1877, maior hospital da região, de bons recursos, importantíssimo para todos nós, mas que, pelo tamanho e estrutura tem grande chance de se incendiar. Andando pelos corredores, palmilhados por mim, todos os dias, durante 10 anos (1991 a 2001), atendendo emergências em endocrinologia, respeito e aplaudo quem me socorreu e deu oportunidade tantas vezes, mas é impossível não pensar nisso.

Minha preocupação quanto à segurança em relação ao fogo é também a de muitos que ali trabalham. O risco de um incêndio é imenso e se tal ocorrer, caso atinja proporções maiores, qual será o resultado? O que diz o Corpo de Bombeiros? Um treinamento de como se comportar, à maneira dos japoneses que simulam nas escolas e repartições a ocorrência de terremotos e suas consequências, seria um bom caminho, pois, suponho que todas as normas devam estar em dia. Afinal são rígidas e suas atualizações passam por frequentes vistorias.

Alarmismo, não! Prevenção e educação, sempre! E que, caso o fogo aconteça, todos possam encontrar uma rota de fuga e se salvar.