A Sociedade Protetora dos Animais não funciona em Montes Claros, mas existem voluntários do Apelo Canino, em ação desde 2010. Cães desaparecidos são reencontrados e levados aos seus donos em segurança, assim como animais abandonados ou maltratados são resgatados e lá encontram abrigo, proteção, comida, cuidados de saúde, inclusive vermifugação, vacinação e castração, carinho e amor até achar um novo lar. Todas essas ações são necessárias, considerando-se que, na cidade, há um descontrole populacional. É comum ver cães soltos pelas ruas, sujos, doentes, famintos, sedentos, miseráveis e desesperados. Nem as pessoas nem as autoridades desconhecem o risco que oferecem na transmissão de doenças e mordidas nos transeuntes, sendo preciso buscar uma solução humanizada para o problema.

No outro extremo, há os cachorros privilegiados, que moram, comem e se vestem no maior conforto. Vestem? Ação mais comum no inverno – amanheceres em Montes Claros na marca dos 12 graus centígrados -, a moda anda a todo vapor esquentando os bichinhos, rendendo lucros e mudando a estética canina e felina.

Proliferam pelas redes sociais vídeos de cachorros em atitudes humanas, e muitos deles estão vestidos. Há os que quase falam, parecem cantar, tocam piano, leem partituras, andam nas pernas traseiras, levam coisas, ajudam seus donos, acalentam, evitam desastres, sendo grandes amigos. Sem contar os resgates e a ajuda em desvendar crimes e achar drogas. Nesse caso o treinamento exige o reflexo condicionado da relação prêmio e castigo. Entre os pets, muitos vestem camisetas da Seleção Brasileira, torcendo pelo Brasil e correndo para debaixo da cama, com medo dos foguetes. Quem faz isso deveria se lembrar do pavor dos bichinhos.

O cão vestido como os humanos – alguns bastante desumanos com os animais – deixa de ser animal em sua aparência. Uma cachorrinha de vestidinho rodado nos faz lembrar uma bailarina estilizada, numa estranha imagem. Os donos gastam dinheiro e parecem estar satisfeitos, mas do ponto de vista do animal, como eles devem se sentir?

Tenho uma prima que trabalha com roupas para animais de estimação e, até por isso, andei pensando no assunto. Em princípio, a não ser por questões utilitárias, acho uma violência tentar humanizar a figura dos cães através de incômodos penteados e roupas. Eles parecem se sentir agoniados, pois assim que podem sacodem ou destroem o que cobre seus corpos. Além do desconforto das roupas quentes e apertadas, que podem machucar suas orelhas na hora de vestir, as amarrações do pelo parecem irritá-los.

Até devido às vestimentas, alguns cachorros acham que são gente e agem exatamente como seus donos. Têm comportamentos que imitam os humanos com os quais convivem, adquirindo o peso e até mesmo as doenças das pessoas da casa em que habitam.

Do ponto de vista do animal, um cachorrinho com roupa parece desprovido do que lhe é mais caro: a dignidade. Caso seja possível, diante do frio invernal, melhor não vestir os peludos. Ao vê-los vestidos, muitos riem. Deve ser porque estão engraçados, para não dizer ridículos. Salvem a dignidade animal! Ou melhor, salvem o animal da indignidade!