Houve uma época em que o cigarro era símbolo de status e glamour. Fumar era sinônimo de rebeldia e sensualidade. Ter um personagem fumando em cena era algo pouco questionado, diferentemente de hoje, época de maior conscientização sobre os malefícios do fumo. Medidas como proibir a propaganda comercial do cigarro e a obrigação de estampar mensagens de alerta nas embalagens também são primordiais para conscientizar a população. Outra medida foi a criação do Dia Mundial sem Tabaco – 31 de maio – pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1987.

Todas essas ações parecem surtir um efeito positivo. Segundo pesquisa publicada na revista científica The Lancet, o números de fumantes no Brasil, entre 1990 e 2015, caiu de 29% para 12%, entre homens, e de 19% para 8%, entre mulheres. Porém, o mau hábito continua sendo um problema de saúde pública em nosso país, que tem cerca de 18 milhões de pessoas que fumam diariamente.

Apesar de o cigarro ser fator de risco para diversos tipos de câncer, como o bucal, laringe, esôfago, estômago, intestino e bexiga, o câncer de pulmão é o tumor que tem o fumo como causa em cerca de 90% dos casos.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa é de que surjam mais de 30 mil casos de neoplasia pulmonar no país neste ano. Excetuando os tumores de pele não melanoma, é o segundo tipo de câncer mais incidente nos homens, atrás do câncer de próstata, e o quarto tipo de tumor mais frequente nas mulheres. Também é o tumor com maior mortalidade no mundo.

Não podemos afirmar que todo fumante desenvolverá um câncer de pulmão, claro. Porém, podemos assegurar que não existe um uso seguro do cigarro. Em qualquer quantidade o cigarro é um fator de risco para a doença e pode aumentar em mais de 20 vezes sua chance de aparecimento. Quando o fumo é relacionado a outros fatores, como ingestão de álcool e predisposições genéticas, as chances de desenvolver um câncer são maiores. Outro complicador é que os estudos sobre rastreamento de neoplasia de pulmão não são amplamente validados e o diagnóstico é feito na maioria das vezes quando o indivíduo já se encontra sintomático. A melhor forma de prevenção da doença é prevenir o tabagismo. Pesquisas comprovam que o risco de surgimento de neoplasia de pulmão diminuiu nos indivíduos que abandonam o tabagismo comparativamente com quem permanece fazendo uso do cigarro.

Largar o vício não é importante apenas para evitar o câncer, mas também é fundamental para pacientes que estão em tratamento devido ao tumor. Parece inacreditável, mas não são poucos os pacientes que continuam fumando após o diagnóstico. Desmistificar a ideia de que “tem gente que fuma e nunca teve nada” ajuda as pessoas a desenvolverem maior consciência e, em um segundo momento, buscarem ajuda para romper com o vício. Parar de fumar não é fácil, mas traz inúmeros benefícios em curto, médio e longo prazo.
 
*Radio-oncologista do Instituto de Radioterapia São Francisco