O grupo olhava o mar em Itacaré – Bahia, na Praia da Concha, que tem esse nome devido ao formato. Lá adiante, um farol. Ali, mar calmo para windsurf, e na praia, sombra de castanheiras, água de coco, cerveja, mariscos, conversa leve e bela paisagem, tudo para embriagar. Então, as palavras antigas chegaram trazidas pelo canto do sabiá no alto do coqueiro. As coisas da roça e da infância afloraram, pois, desde a hospedagem na ilha, com pouca gente, podiam-se ver galos, galinhas, cocás, patos e pavões, elementos a mais para a saudade chegar. Foi como ir à fazendinha Aliança, de Seu Indalício, e a memória abrir seu baú, fazendo os mortos voltarem com suas falas desaparecidas.

Milena, referindo-se a tentativa de segurar uma criança a qual fosse impossível controlar, narrava o fato, dizendo ser preciso “sujegar” o menino nos braços – e fazia o gesto de força, para levar ao banho e não deixar escapulir. Não os filhos dela, mas de alguém. Bem depois veio a tradução: “sujegar” era, na verdade, uma corruptela de subjugar, ou seja, submeter alguém a algo.

A meninada do Norte de Minas dizia “burriscar” e não rabiscar, assim como “ribuçar”, ao invés de embrulhar. A lembrança dessas palavras veio a partir do mar e daquela vontade de ficar dentro d’água até as mãos e os pés ficarem “ingrujidos”. O dicionário digital “O Grande Sertão”, organizado por Petrônio Braz, informa que a palavra existe e significa amarrotado.

Alguém se lembrou que a avó chamou o neto e pediu para que ele lhe trouxesse um tamborete. O menino ficou imaginando o que seria aquilo, para depois descobrir que era banco.

O povo da roça no Norte de Minas não diz cérebro, e sim “célebro”, então, uma moça da fazenda dos meus bisavós, quando tomou sua primeira dose de cachaça, falou para minha avó: Du, está me dando uma “celebreza”. Então, na minha família, ficou esse termo para indicar o momento em que o efeito alcoólico começa de leve.

Outras famílias também têm seu jeito peculiar de falar, criando palavras que são entendidas apenas lá dentro. Vejo alguém dizer “fechar a luz”, no lugar de apagar a luz, como também se referir a alguém excluído numa mesa ou festa com o seguinte termo: ficou lá “recantilado”.

Em relação aos regionalismos, nos pontos de venda em Ilhéus, pôde-se constatar que a mandioca do norte de Minas, ali não se chama macaxeira, como no restante do nordeste, mas sim aipim, como no Rio de Janeiro. Influência do mercado? Luiz Gonzaga e outras fontes ensinavam ao sudeste como é a linguagem nordestina onde abóbora é jerimum, canjica é mungunzá, mingau de milho verde é canjica, quebrar o braço é “torar” o braço e bolo preto de farinha é pé-de-moleque.

Assim, dicionários regionais são necessários e até indispensáveis, para evitar mal-entendidos, especialmente nas redes sociais, onde a ausência de entonação às letrinhas traz desavenças desnecessárias.

E nessa roda de histórias, o grupo, vendo o mar ali adiante, gastou parte da manhã, trazendo palavras de lá e de cá, da meninice, da boa saudade e umas gostosas risadas.