Quem não os tem. Depois de algum tempo verifiquei que sonhar é uma constante da vida. Longe ficam os pensamentos utópicos de um mundo melhor ao sabor do nosso desejo. 

Todos intimamente temos a noção e sabemos que, quando jovens, somos mais irreverentes, sonhadores e acreditamos em belas e lindas histórias, em fadas e duendes, nos deuses do Olimpo e por vezes no Pai Natal (que nos traz os presentes tão almejados e desejados), no Coelhinho da Páscoa que nos enche de chocolates e amêndoas, e em todos e tudo, o que significa alegria, bondade, felicidade e veracidade.

Somos felizes quase sempre e com pequenas coisas, em parte devido à inocência e sinceridade subjacentes à criança e ao jovem. Queremos é brincar, saltar, rir, ao deus-dará, sem olharmos para o amanhã. A pura inocência é sinônimo de felicidade.

Consoante vamos crescendo e, de acordo com aquilo que a vida nos dá, adaptamo-nos às responsabilidades das mesmas. Aprendemos com os nossos progenitores e educadores que viver é supostamente ter e assumir responsabilidades. E aí começa o nosso calvário evolutivo que nos preparará para os anos vindouros.

Pois quanto mais “responsáveis” nos tornamos, mais rapidamente perdemos a criança que existe em nós e, consequentemente, a inocência e a pureza a ela inerentes. Os sonhos nesta fase de crescimento e maturidade ficam distantes dos ilusórios da nossa juventude, mas mesmo assim eles continuam a perseguir-nos, pois essa busca inalterável e persistente de aprendizagem e realização provoca-nos cotidianamente. 

Chegando à fase adulta e já amadurecida por alguns sonhos desfeitos e mal paridos, deparamo-nos com imensas contradições, absurdos e contrassensos. Nessa altura, os sonhos substituem-se pouco a pouco, e a realidade (ou aquilo que está a nossa volta) toma conta das nossas mentes. 

Tornamo-nos talvez mais racionais. A emoção, a vibração e a trepidação da juventude são em parte substituídas pela coerência e segurança nos atos e atitudes (deveria ser assim).

As frases supostamente sábias aparecem nas falas sábias supostamente, “já não sou mais criança”, “isso fazia quando era menino”, “coisa de criança”, e por aí vai, num emaranhado de dizeres afirmativos, como se fosse obrigatório afirmarmos algo a nós próprios. Sem darmos conta e com a maior das naturalidades, somos pais, mães, deixamos de ser unicamente filhos, para sermos também chamados a sonhar novamente com o amanhã. A frase ouvida anos antes se repete na nossa memória, “filho és, pai serás”. 

Assim, tão naturalmente como crescemos e nos transformamos em adultos, hoje somos pais, e ao sabor do vento e das ondas voltamos a ser crianças, aos nos colocarmos ao mesmo nível dos nossos pequenos filhos ou dos netos, para com eles voltarmos a rir, a dar gargalhadas, a brincar, a rebolar no chão, a contar e ouvir histórias, e retomarmos os sonhos por um país melhor, por um mundo mais justo, onde haja paz, compreensão entre os homens e o abraço fraterno seja verdadeiro e onde: “O sonhar seja uma constante da vida”.