Ao nascer, o que se faz primeiro? Chorar, respirar ou ambos? Voto na terceira opção. Quem nasce bem, já nasce chorando. É o APGAR 10. O Dicionário Aurélio define chorar como verter ou derramar lágrimas; exprimir tristeza, dor, com gemidos e soluços; lamentar-se, lastimar-se, lamuriar-se, queixar-se; sentir profundo desgosto ou saudade, pela perda, falta ou ausência; sentir remorsos ou arrependimentos. É um verbo bem conjugado, pois todos já o praticaram, praticam e praticarão.

Choro sem lágrimas é comum, mesmo sincero, ainda que o sofrimento fingido seja chamado de lágrimas de crocodilo. Pode-se representar o choro sem sentir emoção. Os atores fazem isso com relativa facilidade.

Diante de alguma frustração acontece o choro. A criança chora com gosto em situações de desconforto e insatisfação. Há também o calundu, no qual algumas crianças pequenas se deitam no chão, rolam, fingem estar morrendo e podem até ficar roxas. Geralmente, sem platéia, sem choro. A crítica recai sobre a mãe. Quase nunca sobre o pai. Pessoas receitarão “surra para consertar o rebelde”. A intenção é manipular a autoridade para lhe ser dada o que pretendia antes do começo da encenação. Pais linha dura não suportam calundu.

Quando o choro foi fruto de um acidente e ferimento sem gravidade, numa criança maior, que tenha sido alertada pelos pais, o responsável ameaça: cale a boca, senão eu vou lhe dar motivo para você chorar.

As rupturas com pessoas, locais ou fatos são as grandes causas de dor nos adultos, e muitos choram nessas circunstâncias. Mas a morte é o grande momento, especialmente quando se abraça um parente do morto ou se é o próprio parente. Dizem que o choro é o receio da própria morte.

As grandes alegrias também fazem chorar. Morando a 750 km do mar, o vejo em épocas muito específicas e quando o enxergo pela primeira vez, meu peito fica embargado e eu choro de felicidade. O impacto da visão se materializa em água nos olhos.

Socialmente, chorar é vergonhoso, indica fraqueza, então, muitos disfarçam ou seguram o choro, que, em situações extremas vem com gritos e outros barulhos que demonstram sofrimento. Anda fora de moda, mas persiste o mito de que homem não chora. Só se for pouco, pois conheço alguns chorões.

O choro tem outras funções, comove, gera compaixão, seduz, mostra fragilidade, chantageia, manipula e outros efeitos pouco nobres, que causam estragos. As áreas cerebrais responsáveis pelas emoções e entre elas o choro são o hipotálamo, área pré-frontal e sistema límbico, que através de hormônios e neurotransmissores, são acionadas e desencadeiam o ato de chorar, uma resposta a um estímulo emotivo que não cabe dentro do peito e se extravasa em lágrimas.

Há quem use antidepressivos e diga não conseguir chorar, devido ao efeito do medicamento, que altera a química cerebral. Em caso de morte de amigo próximo ou parente, se sentem bloqueados, ainda que a dor lhes aperte o peito. Um mar de lágrimas é algo que faz comunicação imediata, sensibiliza e pode ter efeito contagioso. Num velório, naquela hora de fechar o caixão, acontece o choro generalizado. Tragam os lenços, pois os narizes também escorrem.