O Brasil enfrentou em 2015 um problema grave de saúde pública, cujas consequências estão presentes até hoje: o surto do Zika vírus, em especial na região nordeste do país. Antes dessa epidemia, os hospitais das grandes cidades nordestinas reportavam um a dois casos de microcefalia por ano; em Pernambuco, no pico da crise, foram registrados entre 5 a 10 casos por dia. 

Além da microcefalia, a síndrome congênita do Zika abrange outras manifestações, como déficit auditivo e ocular, síndrome convulsiva, retardo do desenvolvimento neuropsicomotor, artrogripose e redução do tônus muscular. A expectativa de vida é severamente comprometida: entre 35% e 40% das crianças não chegam a completar o primeiro ano de vida.

Atualmente há levantamentos a respeito do diagnóstico sorológico, com pesquisas de anticorpos específicos para o vírus Zika (ZKV), ainda não disponível. Também há estudos sobre terapêutica antivirótica: drogas que atuam contra o vírus C da hepatite têm demonstrado in vitro atividade diante do ZKV, aguardando-se análises clínicas que corroborem a possibilidade do emprego em mulheres grávidas.

Sobre o uso de anticorpos específicos contra ZKV, há um estudo pré-clínico evidenciando a eficácia da administração desses anticorpos na redução da carga virótica do ZKV, também com potencial aplicabilidade em gestantes, de modo a reduzir a chance de transmissão materno-fetal. 

Enquanto os pesquisadores trabalham, é importante que a abordagem terapêutica da criança acometida pela Síndrome Congênita da Zika seja sempre multiprofissional, envolvendo médicos, enfermagem, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, odontólogos, fisiatras, farmacêuticos e assistentes sociais. Quanto mais imediata essa atenção menor será o impacto das sequelas.

Um bom exemplo está sendo realizado por professores e estudantes da UniFG no projeto “Quero Bem”, em Jaboatão dos Guararapes (PE). Criado no âmbito da FG Comunidade, clínica escola do centro universitário, o programa oferece tratamentos de fisioterapia, nutrição e psicologia para crianças com microcefalia, bem como acolhimento psicológico e atendimento jurídico às famílias.

O projeto chama atenção a ponto de conquistar o prêmio Here for Good Award 2017, promovido pela rede internacional de ensino superior Laureate, da qual a UniFG faz parte. Até o momento, foram acompanhadas 50 famílias e os resultados mostram que é preciso seguir adiante: os bebês chegavam com rigidez muscular, ausência de expressão e de linguagem, inclusive comprometimentos biológicos, como deficiências visuais e dificuldades respiratórias. Com o tratamento, desenvolveram a motricidade, diminuíram a rigidez muscular e passaram a apresentar uma linguagem própria e um rosto cheio de expressão.

É preciso disseminar ações como esta, pois a luta não acabou: cada pequena conquista das crianças é comemorada como uma vitória pelas famílias. Mais do que os cuidados paliativos, projetos como o “Quero Bem” mostram que a medicina deve andar de mãos dadas com a solidariedade e o desenvolvimento social.