Águas passadas não movem moinhos e nem matam a sede de agora. Décadas atrás o norte de Minas contava com rios perenes e o período regular de chuva era de outubro a março. Montes Claros, hoje com estimados 400 mil habitantes, tinha rios de expressão, como Rio Verde e Rio Vieira, o qual causava enchente nas várzeas dos seus velhos tempos, e que hoje é um filete de esgoto que inunda o centro da cidade, não de água, mas de odor fétido da sua miséria. Canalizado, nas raras chuvas invade o comércio próximo.

De maneira inexorável, o desvalorizado cerrado, com suas árvores baixas, tortuosas, de cascas grossas, eram pés de pequi, murici, araçá, jambo, carambola, buriti, cajá, panã, umbu, jenipapo, jatobá, cagaita, mangaba, e outros foi levado nas carrocerias de caminhões. Feito carvão foi azeitar a indústria automobilística, e em seu lugar plantaram eucalipto.

As chuvas desapareceram e os rios secaram. Embasbacados, vimos a tragédia pronta, enquanto a vocação agropecuária foi sendo substituída pelo comércio, serviço médico-hospitalar e faculdades.

Há sete anos começou o atual período de seca, estiagem prolongada, chuvas escassas e redução extrema da oferta d’água. Tida em relativa abundância, e por isso pouco valorizada, a água se tornou preciosidade. A população, nos últimos dois anos, vendo o escasso virar raro, com chuvaradas de apenas uma a duas semanas em todo o período chuvoso, mudou seus hábitos.

O racionamento de água começou em outubro de 2015, com o nome de restrição hídrica e o discurso de que era preciso não alarmar a população. Alguns não mudaram seu consumo, alegando pagar e que as chuvas voltariam.

Não voltaram. Nos bairros nobres as residências possuem reservas d’água, muitas com cisterna ou poço artesiano. Nas pontas de rede e nas partes altas não chega água com força para subir nas caixas. Quem tinha pequenos reservatórios ou usava a água da rede, se viu obrigado a comprar caixa d’água maior, para tentar sobreviver.

Enquanto a maioria abre pouco e logo fecha a torneira, vazamentos ocorrem na rede, ficando a jorrar por horas, sem providências da concessionária. De um lado há quem não tenha água para beber, cozinhar e tomar banho, enquanto outros trocam a água da piscina, lavam passeios e carros com mangueira, alagando o mundo e a ira alheia.

O lençol freático está se exaurindo, cisternas secaram, poços foram aprofundados, pessoas reutilizam água para descarga, e molhar plantas (jardim reduzido), usam menor número de roupas e utensílios domésticos, seguindo a ordem máxima de poupar.

A barragem de Juramento está com 18% da sua capacidade. Dividida por setores, a cidade tem água num dia e faltam dois deles. Não há previsão de chuva, que, se chegar será em fins de outubro. A Copasa, com 17 anos de atraso, prometeu trazer até 2018 água em adutoras do Rio Pacuí, um riozinho minguado, em Coração de Jesus, onde corre um filete d’água.

Sedenta e ameaçada, Montes Claros clama aos céus, faz penitência em procissão, levando pedras na cabeça, enquanto usa por dia a terça parte da água que usava antes. Enquanto tiver. O rio São Francisco está seco em Pirapora.

Os frutos do cerrado ficaram na nossa memória olfato gustativa. Pereceram, agora seremos nós. É preciso acreditar na primavera, a nossa última esperança.