Uma chuva brava e forte, para o tempo que se ficou na seca de meses, foi celebrada com muitos vivas e alegria. Teve gente que não se molhou na chuva, embora nela estivesse, eufórica, sem perceber a água a escorrer-lhe corpo abaixo. Um êxtase. Molhou chão e asfalto, e ambos secaram tão de repente, que, instantes após, nem pareciam chãos de chuva. Só restando o cheiro inconfundível da chuva, nos chãos já secos. Ou de terra ou do asfalto. Foi assim repentina e ligeira, a chuva do sábado domingo. 

Deu uma limpada no amarelo das folhagens e nos galhos ainda banhados da poeira desses Montes Claros, que o vento sopra e carrega. Fica a saudade e o calor que subiu de posto e se fez calor em demasia, após a chuva. Deu-se, mesmo assim, meia vida a tudo. Até para nós, como se aquela água caída dos céus, fosse água benta. 

Montes Claros e o Norte de Minas estão passando por tempo de falta de água, jamais vista. Previsível sim, mas jamais vista. Racionamento de água é por pura falta de planejamento. Não se pode alegar somente a falta de chuvas, como razão única e primeira. Faltou-se investimentos preventivos, em todos os municípios deste imenso setentrião mineiro, com os manejos e os cuidados com as matas ciliares, protetoras dos riachos, córregos e dos rios e da proteção das nascentes. 

E nem se implantou as barragens de Berizal, de Congonhas e de Jequitaí. A famigerada usura por pastagens e pelos lucros do dinheiro, foram dizimando o que a natureza construiu por milênios, da flora e da fauna. Desertificou-se quase por completo as margens dos rios e das nascentes e as suas proteções naturais. 

Nas poucas nascentes e mananciais das cidades solidificou-se casas e prédios, e os também e até necessários, taludes e canais para o escorrimento das águas dos antigos rios, sem os seus leitos naturais, ou com a cobertura dos canais. Muitas vezes se jogando, ainda, nestes canais, os esgotos urbanos. Este é o quadro que se tem hoje, raríssimas as exceções e os programas que se tornam emergenciais, hoje, e não mais preventivos, para se resgatar toda esta profusão de água, exaurida e ou morta pela insanidade humana, com a anuência do poder público, pela inércia do mesmo e pela falta de políticas públicas permanentes, em defesa dos mananciais e da proteção dos córregos, riachos e dos rios. 

As chuvas vão voltar, já se chega o tempo delas, para nos encher de vida e de tudo que vive em torno de nós ou vice versa. Que sejamos receptivos com as chuvas, deixando que alimentem de vida também as nascentes e todos os córregos, riachos e rios, que encharquem os pântanos, que encham os reservatórios, as represas, as lagoas e os lagos, de todas as dimensões, que façam florescer a flora e as árvores e matas nos percursos por onde correm as águas, como o manto de proteção e de preservação das mesmas. 

E que cuidemos da água com o amor que ela merece, para que nós e as gerações futuras não sejamos privados dela. Assim continuaremos a ter um Norte de Minas forte e florescente e uma Montes Claros Maior.