Primeiro foram as janelas de casa, com sua visão limitada ao quarteirão. Isso quando se esticava o pescoço para fora e era possível ver até a esquina. A captação se ampliava com a rede de comadres que traziam as novidades. O mundo era grande, mas o raio de ação pequeno. Falar de quem não se conhecia não fazia o menor sentido. Depois foram os edifícios, em áreas centrais, com ruas movimentadas e um universo maior e mais fervilhante. Muitas famílias empilhadas e mais assunto para ser comentado. Décadas depois, passou a acontecer a efervescência das comunidades em oposição à exuberância dos condomínios.

Os jornais e revistas traziam assuntos de lugares distantes. O rádio entoava músicas (um disco de 78 rpm, de goma laca e 25 cm tinha uma música de cada lado e hoje um minúsculo pendrive tem 5 mil), contava histórias em novelas e traziam notícias do outro lado do mundo. O cinema era mais interessante. Não era preciso imaginar. Era possível ver. Então a TV veio, no começo com seu videotape e depois ao vivo. A cada dia a janela de informações ficava maior, exigindo menor esforço para a notícia chegar, e uma maior amplidão de maneiras de ser e de viver. Houve o tempo do videocassete, das filmagens das férias familiares que trazia um milagre: filmar e ver a cena instantaneamente (década de 1980). As locadoras de filmes em videocassete alugavam tecnologia fugaz e aqueles produtos piratas, de má qualidade, logo viraram DVD. Os poucos canais de TV tornaram-se infinitos.

Então, chegou e se popularizou a internet, especialmente depois dos smartphones. Enquanto a janela para o mundo se tornou tão ampla quanto o próprio mundo, este ficou diminuto e cabe na palma da mão. Uma legião de pessoas passou a frequentar as chamadas redes sociais que precisam ser rebatizadas de redes antissociais de tantas guerras que as assolam. Todos precisam postar muitas vezes por dia, numa atitude insana que lembra uma frase de Gonzaguinha: “Nossa terra tem muitos sabiás para poucas palmeiras”. Há tanta gente postando. Junto com esse hábito, veio a necessidade de opinar sobre tudo e, levado pela grande mídia, o país se dividiu em vermelhos e azuis, que se odeiam e querem destruir seus oponentes.

“Eu sou azul, você é vermelho, então eu te mato”. Andam empurrando goela abaixo tanta insensatez que a náusea invadiu a alma dos mais sensíveis. Os que não perceberam o grau de insuflação da grande mídia, que sejam mais humildes e olhem em volta. Desde 2013 há uma promessa de guerra em curso, que agora se faz presente em todos os níveis, na rua e na internet. Opinar já não é suficiente. É preciso achincalhar e desmoralizar o adversário. Não é satisfatório rebater a opinião do outro, destroçando sua ideia com argumentos, é preciso acabar com o mensageiro, difamando-o. Não gostar e ter antipatia de alguém são naturais, mas é patológico sentir ódio. 

Se sentir enganado é humilhante. A manipulação irrita os manipulados, que aceitam os efeitos da manobra, mas negarão a verdade. Melhor seria abandonar os maus sentimentos e procurar dar asas à informação, tornando-a algo útil. Nem é preciso dizer que seria melhor para todos.