Frustrações trazem amadurecimento. Mas é necessário passar pela dor para crescer? Há quem chame os percalços de azar, porém são pedagógicos. É ruim querer e ter de imediato? “É chato chegar a um objetivo num instante”, disse Raul Seixas, em 1973, em “Metamorfose Ambulante”.

Uma pessoa duvida de que possa se apaixonar. Mas um dia é colhida por um vendaval de fogo. Desiste da vida que tem e decide encarar a paixão. Esta, diferentemente do amor, não dura para sempre. Nasce, cresce, tem um apogeu, declina e morre. Consta que dura dois anos. Depois do fogaréu, restam cinzas e a frustração do fim do relacionamento. Foi bom viver aquilo. Deu certo enquanto durou. E agora? Viver agarrada às lembranças ou trancá-las num baú sem chave?

Enquanto faz uso do seu carro, que perde valor, vai planejando trocá-lo. Os que podem tudo não sabem o que é ir poupando até poder pagar a diferença. Após cinco anos, chega a hora. A troca é feita, mas em menos de seis meses o carro dá um problema, que, mesmo abrindo o motor, com a anuência da fábrica, não é sanado. Além da perda financeira, desgaste físico e emocional, o enorme tempo gasto: onze visitas a concessionária em meio ano de negociações. Uma nova troca de carro é feita, para que o prejuízo não seja maior.

Na penúltima pintura da casa a irritação atingiu um nível insuportável, com objetos e chão destruídos, preço alto e serviço mal feito. Deu vontade de nunca mais pintá-la, mas um amigo indica um pintor honesto, caprichoso, que não suja quase nada, limpa ao fim da obra, faz um preço justo e gasta o tempo normal. Faz-se a combinação, e o que ocorre? Consumo abusivo de tempo e material, grande estrago e serviço ruim. Em poucos meses as paredes já estão descascando.

O ar-condicionado está antigo, consome muita energia e esfria pouco. O verão explodiu em calor, ficando dois meses com temperaturas por volta de 36/37º C nas tardes. É urgente comprar outro, o que ocorre um ano depois. O ar-condicionado vem com defeito: uma mangueira interna furada. Não trocam o aparelho. Será consertado na empresa autorizada e demora 45 dias para ficar pronto. Isso em janeiro e fevereiro.

Alguém nunca teve um cachorro. Amadureceu a ideia durante sete anos. Enfim, ganha uma filhote. Apesar do amor e todos os cuidados, inclusive orientação de várias pessoas com experiência, vídeos sobre psicologia canina e até consulta com um domador de leões, nada dá certo. A cachorrinha não come ração e morde os donos, inclusive no rosto.

Depois de usar uma televisão 29 polegadas durante 22 anos é preciso substituí-la, pois o sinal analógico vai sair do ar e não compensa comprar um conversor externo. É comprada uma televisão de boa marca e bom tamanho, mas, ao ser instalada, não mostra imagem em alta definição. Após oito meses, quase uma gestação, o problema persiste. Quem fornece o sinal fala em conversor externo, e após quatro visitas, é feita a opção pela sugestão dada. Mas a imagem não muda. Gastos inúteis e uma segunda hipótese: o aparelho teria vindo com defeito. O que fazer? Levá-lo a autorizada, usando a garantia, que se expira em quatro meses. Chorar pra quê? Para crescer são necessárias dúzias de frustrações. Agora é esperar pela próxima.