Como todos sabem somos envolvidos e interessados em estudar o comportamento humano, em todas as suas dimensões, facetas e circunstâncias. Cremos, no entanto, que é nas crises que afloram as verdadeiras naturezas que espelham nossos reais caráteres e nossas genuínas manifestações, tornando-se um “prato cheio” para uma análise mais crítica. Esta episódica greve dos caminhoneiros vem, a todo momento, me fazer refletir mais sobre isso e constatar infelizmente algumas convicções nada honrosas e generosas sobre o egoísmo e a hipocrisia do ser humano. Creio que isso acontece em todo o mundo, mas tenho a impressão que parte da sociedade brasileira é imbatível neste quesito, especialmente a elite, a classe média, a burguesia em geral. Num momento em que uma combalida classe de brasileiros, depois de várias tentativas de sensibilização junto ao governo federal, após esgotar todo o seu estoque de reclamações, resolveu jogar a toalha, chutar o balde, entornar o caldo, diante de uma falta total de perspectiva de condições 

de sobrevivência digna através de uma jornada suada de trabalho, o que se viu são reações pouco inteligentes de parte de alguns, que não perceberam a armadilha em que estão se metendo. Refiro-me não aos milhões de brasileiros que apoiaram integralmente o movimento, mas àqueles apressadinhos, àqueles nervosinhos, àqueles idiotas que se acotovelaram nas filas quilométricas e pasmem, dispostos a pagar uma fortuna por um litro de combustível, mesmo tendo que passar uma noite de plantão no primeiro posto da esquina. 

A questão para estes desatentos, para esta gente sem noção, não foi a questão central, da cruel política de preços implantada pelo Sr. Pedro Parente na Petrobrás e sim abastecer seu tanquinho particular de gasolina ou álcool e aí sim ficar tranquilo e com sua vidinha resolvida e poder assistir tranquilos os desdobramentos da crise pela TV. Esses pobres coitados, que ganham seu sustento também em reais, que só têm aumento de salário uma vez por ano, não percebem que a questão não é só dos caminhoneiros, não se restringe ao óleo diesel, e muito menos só aos combustíveis. Trata-se de um modelo econômico, de uma opção política, do nosso futuro, da gestão da maior riqueza que o País possui e que deveria ser explorada para beneficiar o povo em geral, não para escraviza-lo, atrelando nossos preços ao dólar lá de fora, aos preços dos barris importados, à volatilização maluca do câmbio, aos interesses dos acionistas milionários privados nacionais e estrangeiros que estão “com o burro na sombra” e com suas ações negociadas em Wall Street. Teve gente até apoiando a paralisação, mas de tanque cheio! Quanta burrice ou quanta hipocrisia! Será falta de inteligência, solidariedade, atitude ou alienação mesmo? Será que o tanque cheio vai cozinhar amanhã sua refeição diária, vai baixar os preços dos alimentos, vai baixar o preço na bomba de gasolina, vai mudar seu destino? Que contribuição você prestou para a sociedade como um todo, dando uma de espertinho e ligeirinho e adquirindo um produto superfaturado e que em nada ajudou um movimento legítimo e popular como este que surpreendeu a todos nós pela coragem e ousadia de seus protagonistas.