Confesso que poucas vezes na vida fiquei tão impressionado. Não era meu primeiro ecocardiograma, já havia feito outros anteriormente, mas por alguma razão não havia me tocado tão profundamente como desta feita.

Não que fosse a primeira vez que escutasse aquele som surdo, enérgico e suplicante do nosso órgão vital do lado esquerdo do peito, mas não daquela forma, não daquela maneira.

Sua voz rouca, seu ritmo veloz, sua pujança dramática, seu apelo frenético, me fez por instante esquecer meu sentido de posse, para perscrutar algo mais amplo, para alcançar algo mais profundo, para sentir algo mais sublime, a própria vida em si!

Pude num relance pela primeira vez sentir de fato o “lance” da vida, a confirmação do mistério, a nudez da realidade, o rigor do fato, a força da experiência, a beleza do espetáculo!

Suas batidas fortes não me deixavam dúvidas, seu arfar intenso me confirmavam, sua ginástica solitária me convenciam, seu pedido ensurdecedor me seduzia.

Por um momento pensei que não pudesse ser eu mesmo, apenas uma parte de mim que não me representava totalmente, algo que pudesse separar de minha verdadeira identidade ou de minha carne... Mas não, lá estava a plenos pulmões, como se a querer me demonstrar o contrário, como a querer me acordar, como a querer me despertar deste ilusório esquecimento, como a querer me conscientizar de algo que precisava aprender, precisava ver, precisava sentir, precisava compreender.

Não se tratava como na maioria dos casos e vivências que nos acometem diariamente. Não era uma questão de entendimento ou de conhecimento. Sempre soube desde criança que temos um coração a pulsar e que é graças a ele que nos mantivemos vivos o tempo todo.

A questão foi muito além da racionalidade, da competência, da intelectualidade. Senti a vida batendo dentro de mim, um bem maior e gratuito que ruge dentro de nossas entranhas como um leão, uma espécie de vulcão em erupção lançando suas larvas como trovões possantes urrando como uma fera enjaulada sob constante ameaça.

Pela primeira vez pude realmente enxergar nitidamente a fragilidade da vida, o fiapo de união que nos suporta, o efêmero vínculo que nos mantém de pé. Pude atestar a fidelidade do gesto, o senso de missão do compromisso, a cumplicidade do aviso, o desespero da mensagem.

Sempre acreditei que um dia haveríamos de ter um encontro verdadeiro com a chama que arde dentro de nós, com a humanidade que nos habita, com a energia criativa que nos move, com a poesia que nos inspira a ser melhores a cada dia. Morrer sem vivenciar esta experiência é passar por aqui apenas como turistas.

Sei que algo mudou profundamente dentro de mim. Não é só uma questão física, de cuidar melhor da saúde, do corpo. É algo metafísico, espiritual, psicológico, transcendental que me fez enxergar além e ao mesmo tempo me colocou mais o pé no chão, agradecido, comovido, alegre, vitorioso, contente, disposto, generoso, solidário, sensível, maduro, humano. Cuide bem de seu coração!