Por que devemos discutir a relação entre as mulheres e a ortodontia? Uma importante razão é porque as mulheres são a grande maioria dos profissionais que exercem a ortodontia do século XXI. Ao examinar o programa de qualquer congresso, nacional ou internacional, ao passar os olhos pelos autores ou revisores de artigos nas principais revistas da área, tem-se a impressão de que a ortodontia é exercida e impulsionada por uma imensa maioria masculina. 

Ledo engano! Enquanto os homens ainda são dominantes nos púlpitos e nas lideranças dos grupos de pesquisa, uma legião anônima de mulheres é responsável pelo principal objetivo da nossa especialidade: promover a saúde e a estética da população.

Crianças, jovens, adultos ou idosos são beneficiados, estética e funcionalmente, pelas mãos habilidosas de uma massa feminina que hoje é a maioria nos cursos de graduação de odontologia, nos de pós-graduação em ortodontia e nos consultórios, onde o exercício da profissão encontra seu júbilo. Além de lotar as carteiras das faculdades, em qualquer nível de formação, elas mostram ao que vêm nas plateias dos congressos ou de qualquer curso de extensão, excelência ou educação continuada, que as mantenha atualizadas e capacitadas para oferecer o melhor tratamento aos seus pacientes.

Desde a década de 60, as mulheres vêm ganhando espaço no cenário profissional, às custas de uma luta constante contra o preconceito e o machismo, presente até hoje no dia-a-dia das profissionais. Em uma entrevista concedida em 2006, a doutora Carla Evans, à época chefe do Departamento de Ortodontia da Universidade de Illinois, revelou que era a única mulher na sua classe de odontologia, em 1965, na Universidade de Michigan, e que, segundo ela, “passaram-se muitos anos para que um número significativo de mulheres ocupasse um lugar em cada classe das escolas de odontologia”. Esse espaço era visto mais como um privilégio do que uma conquista.

Ainda hoje, a voz masculina parece ter mais credibilidade do que a feminina, mesmo no olhar das mulheres, impregnadas pela cultura e educação machistas. A história e a cultura marcam as nossas vidas e as nossas oportunidades. A virada numérica nas escolas de odontologia ocorreu em um passado muito recente e esse processo ainda está em curso, inclusive no olhar das próprias mulheres, as quais devem se sentir capazes de assumir as posições de liderança em pé de igualdade com nossos colegas de profissão.

Que cada uma de nós faça sua escolha, sempre pela felicidade. Citando Adélia Prado: “Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento”. 

Enquanto nos anos 50 do século passado não se falava em mulheres ortodontistas, hoje somos a maioria de uma profissão que nos orgulha mundo afora e temos cada vez mais representantes entre os palestrantes, os autores e os revisores, trazendo um olhar cada vez mais feminino para aquela que já nasceu feminina: a ortodontia.