Não existe cerimônia pior do que casamento nem mesmo funeral. Pessoas saem de cena e fantasmas entram no palco. Os personagens representados costumam estar radiantes. Numa retrospectiva, poucos não colocarão seu casamento entre os cinco acontecimentos mais marcantes. O investimento afetivo, social e financeiro é alto. Noivo e noiva querem estar com a melhor aparência possível, mas pode acontecer o contrário.

As últimas décadas trouxeram alta complexidade à cerimônia. Antes, em poucos meses se davam as escolhas, por preços razoáveis. Agora é preciso gastar um ano e muitos mil reais. O que já era inesquecível tornou-se eterno. Do enxoval à lista de presentes na internet, do vestido de noiva ao dinheiro cotizado para a viagem, das dezenas de madrinhas e padrinhos com roupas da mesma cor e seus magníficos presentes, da igreja com decoração majestosa à festa em clube para centenas de pessoas. Inclui-se aí decoração temática, coquetel, bebidas, jantar, shows, até o amanhecer, quando é servido o café da manhã. Sandálias ou sapatos baixos são presenteados aos convivas, além de caixas decorativas com bombons e outros mimos.

O Dia da Noiva, com banho de ofurô e o que mais houver para relaxar e embelezar, é uma ostentação. Madrinhas passam o dia no salão, sendo maquiadas pelos mesmos profissionais. Tudo filmado e fotografado por um batalhão, a custos que poderiam bancar um apartamento. Não são multimilionários, artistas, jogadores de futebol ou políticos. São pessoas de classe média, que fazem dívidas para o megaevento acontecer. Há planejadores, coordenadores, estrategistas, decoradores...

Em se tratando de casamento católico, a fala do padre, pessoa que nunca se casou, ensina como é a vida a dois. A mulher deve esperar o marido com a casa limpa, banho tomado e a comida pronta. A arcaica pregação reafirma que ao marido cabe ganhar dinheiro e à mulher, cuidar da casa e dos filhos. Caso ela trabalhe, “ajudará” ao marido, e se ele achar que cuidar do lar também é sua obrigação, “ajudará” a esposa.

A pior parte do casamento, depois da infidelidade, são as vestimentas e “makes” dos personagens. O noivo vai de pinguim e a noiva de princesa. Sempre de cabelos soltos, ela aparece de coque, com uma máscara pálida, como cera, em volta dos olhos muita cor preta e cílios postiços. Acostumada a roupas despojadas, está com imenso decote e pedrarias, engessada num vestido pesado que mal a deixa caminhar. O cerimonial, atento, abre a roda da saia para as fotos. O sorriso nervoso dela parece congelado. O noivo, por sua vez, está enclausurado numa armadura. Os convidados são seres estranhos, fantasmas corporificados. Mulheres de vestido longo, em cima de sapatos altos desconfortáveis, tentam sorrir, quando poderiam chorar. 

Ah, o teatro é longo e demora duas horas, só na igreja. Na festa, a turma relaxa, pois o álcool ajuda a estabelecer uma situação menos anormal. Porém, na parte final da comemoração, quando o nível etílico predomina, acontecem as selfies vexatórias. Caso o casamento dure, vale cada centavo, mas há casos que não esperam a família pagar a última prestação. Casamento? Prefiro não ir.