A Copa do Mundo de Futebol já vai longe neste junho, e o sol fulgurante da manhã contrasta com a indiferença da população ao grande evento mundial, que foi confirmada, em parte, no comportamento da torcida no jogo do Brasil contra a Suíça. Ruas movimentadas e poucos carros ostentavam uma pequena bandeira do Brasil na janela. Não vi ruas decoradas. Há uma semana, uma moça embrulhada numa bandeira do Brasil atravessou a Praça da Santa Casa. Poucos desfilaram no Montes Claros Shopping com a camisa amarela e verde da Seleção. Justifica-se: não querem que a sua torcida pelo Brasil seja associada a movimentos políticos contrários a sua ideologia. Ainda assim, mesmo frios, como o mundo está dividido em tudo, há o grupo dos que são contra e dos que são a favor, e mais uma vez acontecem discussões nas redes sociais sobre assistir aos jogos e torcer ou não assistir ou até mesmo torcer contra o Brasil. Alguns arriscam teorias sobre a frieza dos brasileiros nessa Copa, coisa nunca acontecida. A dor do sete a um da Alemanha incomoda muito, e a grave situação política e econômica tirou a alegria do povo brasileiro, aquela gente cordial, afável, pacífica, pelo menos no discurso de tempos atrás, mas que há cinco anos mostra toda a sua garra, não para torcer e vencer, mas para destruir o oponente. Caso não possa contra-argumentar em relação à ideia defendida, é urgente desmoralizar o missivista. São muitos os motivos do baixo ânimo dos brasileiros.

É tão fácil ser piegas diante da pobreza e da injustiça, especialmente contra velhos e crianças. Mas a pobreza dos novos também sensibiliza. No sinal, homens e mulheres jovens, alguns estrangeiros, fazem malabarismos e catam moedas. O tempo do show é longo, caindo bolinhas, malabares e facões. Aqui em Montes Claros, cidade pobre onde não faltam os insensíveis, a renda é pequena, mas, ainda assim, a concorrência é grande. Algumas vezes sou impelida a colaborar.

A trilha sonora desta manhã é Construção de Chico Buarque. A música da minha vida foi lançada em 1971, quando me atingiu mortalmente desde o primeiro instante. Eu era uma menina de 16 anos e me vi tocada pelo triste fim do trabalhador da construção civil de uma grande cidade, que se despede da mulher e dos filhos, sobe no prédio em construção, come “feijão com arroz como se fosse um príncipe” e se suicida saltando no ar. Cai no asfalto e atrapalha o trânsito, única maneira de ser notado. Chico Buarque brinca com as finalizações dos versos, e mexe com a gente na repetição. Depois vem um refrão crescente, outra música, com o intuito de nos confortar em relação à morte de alguém que, diante da vida sem perspectivas, escolhe morrer a continuar. A situação mostra que a propalada meritocracia não chega para todos. O sonho de ser um príncipe o faz flutuar no ar até se estatelar no chão.

Numa vida de tantas músicas, escolher apenas uma é desafio que aceitei. Construção me encanta, me enleva, me toca e me comove. E esse efeito continua me entristecendo com a realidade da maioria dos 7,6 bilhões de habitantes do mundo (ONU – junho de 2017). Eu não sei ser indiferente. Quero música, futebol e justiça social, coisas que, quando misturadas dão um bom caldo para rir e chorar simultaneamente.